A reinvenção de Samico
No texto curatorial de Frederico Morais para a exposição comemorativa dos 40 anos da arte de Samico, realizada no Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães em 1998, ele afirma: “Seu repertório de signos e imagens não pertence mais a uma região, a uma cultura ou época definidos. É universal. Intemporal. Inclui arquétipos e mitos que se perdem nas entranhas do tempo e que encontramos reelaborados nas várias épocas da história da arte universal.”
Samico elabora suas
xilogravuras e pinturas com o sentido do precioso, daquele que cria e coleciona
joias, e faz isto lançando mão de um imaginário, às vezes recorrente, mas rico
e complexo. Em gravuras como “A virgem dos cometas”, de 1991, “Criação – pássaros
e peixes”, de 1992, e “O retorno”, de 1995, vemos a recorrências de peixes,
pássaros, serpentes, estrelas, cometas que integram a coleção de figuras como
cavalos, pavões, anjos, demônios, calangos, navios, luas, sois, onças, tatus e
garças, associadas entre si e a tantas outras figuras que nos contam lendas e
revelam sonhos.
Os desenhos de peixes,
pássaros e serpentes formam um núcleo simbólico mais presente e mais fácil de
ser reconhecido como forma. Por isto percebe-se que eles podem ser usados por
outros meios, outros materiais expressivos além da xilogravura como está fazendo
seu filho Marcelo Peregrino ao criar e construir os objetos desta exposição que
aqui apresento, pensando em homenagear samico pelos oitenta anos de vida. Ele
escolheu o alumínio, o vidro e a madeira para trabalhar, cortando, limando,
lixando, montando pedaços de metal sobre madeira e vidro, inventando outras
maneiras de me mexer com a matéria expressiva formando coisas com o requinte
artesanal que lhe é peculiar. Estas coisas, são a interpretação pessoal de quem
convive desde sempre com o grande mestre.
É sabido que Samico é também,
além de tantas habilidades, um mestre Carpina requintado, criador e artífice de
belas caixas de madeira e molduras delicadas. Marcelo não podia ser diferente,
além do pintor de paisagem que figura no topo da pirâmide do talento regional,
ele é também um carpinteiro paidéguas. Emoldura, embala, monta exposições,
trabalha com os materiais adequados para a perfeita apresentação da arte ao
público. A arte dele e a arte dos amigos que o contratam por ser referência em
qualidade e profissionalismo.
Esta exposição mostra a
transposição da obra única para o múltiplo, a transformação do detalhe em outra
obra, e a multiplicação da criatura do artista. Não está implícita nesta
exposição a ideia de vulgarização, até porque estes objetos saem do núcleo familiar,
do ateliê – oficina do saber – e da herança que Marcelo recebe de Samico e a
transforma em beleza pura, para encantar nossas almas e nossos corações.
Ainda jovem, num momento de dúvidas, Samico foi ao amigo Ariano Suassuna em busca de conselhos. Ariano lhe disse para procurá-los no mundo mágico da poesia e das gravuras de cordel. Daí sua arte se alinhou a uma vertente de representações do mundo ao modo, podemos dizer, binário que só a xilogravura comporta. Vemos hoje seu nome brilhar ao lado dos mestres da xilogravura moderna brasileira, como Oswald Goeldi, Lívio Abramo, ambos seus antigos mestres, e Maria Bonomi, a grande gravadora em madeira de São Paulo. A obra de Samico, porém, tem a importante virtude de ter elevado o imaginário popular nordestino ao nível da arte erudita.
Porém, Samico não é somente o gravador, é, sobretudo, o desenhista e o pintor. O desenhista tendente à fantasia da perfeição que nos surpreende quando vemos seus desenhos dos ano 50. O pintor, quando conhecemos as três direções de sua arte: a imaginária, que reproduz o universo de sua xilogravura, a virtuosa, representada por suas paisagens, e o retrato femininos. É importante que se observe além ou aquém da sua gravura para se compreender seu universo complexo e experimental, o que transcende ao armorialismo de Ariano Suassuna que, aliás, foi inspirado por ele.
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