Notícias da cidade das esculturas
O Rio Paraná é a grande artéria que integra o Brasil com o Paraguai e a Argentina num complexo cultural que tem como base o povo Guarani. O Paranazão, como é chamado pelo povo, serpenteia e vibra com sua força telúrica entre terras baixas, charcos inundados por águas repletas de vida, luz e calor. Entrando na Argentina, há seiscentos quilômetros de Foz do Iguaçu, capital da Tríplice Fronteira, em pleno Nordeste do país vizinho, estão duas cidades símbolos da cultura atual argentina: na margem esquerda Corrientes, e na direita, dez quilômetro adentro, Resistencia. Corrientes, debruça-se sobre o trecho mais largo do rio onde existe uma ponte de mais de mil metros em direção a Resistencia. Corrientes é a capital da Província do mesmo nome. Já Resistência, com pouco mais de cem anos, é a capital da Província Del Chaco. Para o viajante desavisado é surpreendente a vida cultural dessa região, especialmente a força das artes plásticas. Corrientes comporta artistas dedicados ao muralismo que trabalham com a técnica chamada lá de “grafite”, que tivemos no grande designer pernambucano Aloísio Magalhães um de seus precursores no Brasil, técnica que consiste na colocação de camadas de reboco colorido, sendo cada camada recortada deixando aparecer a camada de baixo de cor diferente, resultando numa pintura em vários níveis com cada cor localizado em um nível diferente. Na beira do Paraná há um parque de murais de vários artistas locais e alguns brasileiros da fronteira.
Em
Resistência, motivo principal deste comentário, a escultura ocupa uma
importância e um espaço inédito em cidades da América do Sul. Na verdade, em
termos relativos, não conheço cidade no mundo que comporte um tão grande acervo
de esculturas em locais públicos de uma cidade pequena. Resistência é a cidade
das esculturas.
Esta história
é recente, é pós-moderna,
começou em 1961, quando os irmãos Aldo e Efrain Boglietti, empresários de
turismo que representavam em Resistência a Aerolineas Argentinas, que eram
também intelectuais envolvidos com a vanguarda da época, passaram a reunir em
casa (hoje patrimônio da cidade, projetada pelo arquiteto Horácio Masqueroni,
um dos símbolos da modernidade Argentina) pessoas ligadas à arte e à
literatura. Colecionadores de artes visuais, eles pensavam a cidade como um
museu a céu aberto. A partir disso Resistência tornou-se neste museu de
esculturas que vemos agora.
O grupo de intelectuais chamava-se Fogón
de los Arrieros, ou melhor, a cozinha (o fogão) dos tropeiros que
transitavam pelo Chaco (que se tornou província em 1951). A ideia deste acervo
ao ar livre foi concebida em 1961 como “Plano de Embelezamento de Resistência”.
Em pouco tempo obras de Lucio Fontana (um interessantíssimo bronze figurativo
do início de sua carreira), Gerstein, Labourdete, Fioravanti, Petorutti e
outros grandes nomes da escultura Argentina espalhavam-se pelas ruas e pelas
praças. Foram pensadas formas de convivência com as obras de arte e a população
foi consultada sobre diversas possibilidades de relacionamento. As opiniões do
povo formam como que um ideário para quem hoje trata da manutenção dessa realidade
cultural. Entre 1977 e 1991 o Fogón de los Arrieros passou a ter sua
continuidade através da Comissão para a Promoção Artística de Resistência –
COPROAR, ligada aos poderes municipais. Mas a partir de 91 entra na história a
Fundação Urunday, grupo de escultores formado por Efrain Boglieti (falecido em
1991) Fabriciano Gomes, seu maior nome, maior incentivador e atual presidente,
Mimo Eidmam, vice-presidenta, Ana Maria Taiana, Carlos Cuffia e Eugenio Milani.
O curador para as obras escultóricas na paisagem é o importante arquiteto
portenho Pradial Gutierrez. Há ainda uma ação educativa realizada por Mário
Venegas e assessoria de divulgação a cargo de José Eidman e Diego Libedisnki.
Não que a cidade não tenha pintores
gravadores, artistas conceituais e contemporâneos, ela os tem e eles são muito
bons, da qualidade de Oscar Daniel Nielsen e Oswaldo Marcón. Mas existe alguma
coisa além do simples gosto pelas artes plásticas, uma espécie de compromisso
dos habitantes com as esculturas, um acordo tácito entre os poderes públicos e
o povo que possibilitou este acervo que está por toda parte, nas ruas, em
frente das casas, dentro das casas, nos edifícios habitacionais e públicos, nas
lojas, em praças e parques, e em um belíssimo parque projetado pelo
arquiteto-paisagista Pradial Gutierrez para acolhê-las ainda mais. São mais de
trezentas obras aplicadas numa cidade que não deve exceder a trezentos mil
habitantes. E este número cresce porque há uma política pública dedicada à
aquisição e colocação das esculturas e uma tendência do empresariado local em
apoiar cada vez mais esta atitude coletiva, característica tão especial desse
povo.
Como base estratégica desta política
pública, porém encaminhada pela iniciativa privada dos artistas da Fundação
Urunday, existe uma Bienal Internacional de Esculturas, a Bienal del Chaco, um
dos eventos responsáveis pela manutenção dessa chama que ilumina esse olhar
sobre a arte e as atitudes cidadãs que ela encerra. A Fundação Urunday, cujo
nome vem de uma madeira na qual muitas esculturas da região são talhadas, para
realizar a Bienal, reúne artistas convidados de vários países para trabalhar em
praça púbica, aos olhos dos passantes, dos cidadãos comuns e, principalmente
dos estudantes que participam de ações educativas perenes na praça. As obras realizadas
na praça passam por um Júri de Premiação e são incorporadas ao patrimônio urbano
da cidade.
Na noite da premiação desta 5a.
Bienal, da qual fiz parte do júri e comento agora. Em frente de um grande
palanque montado na Plaza 25 de Mayo, a principal da cidade, onde funcionaram
as oficinas ao ar livre onde os escultores trabalharam às vistas do povo,
estava cercado por mais de dez mil pessoas reunidas sob um frio de dez graus. O
povo aplaudia em praça pública, numa noite de sábado, propícia a programas mais
familiares, seis escultores cujas obras viu serem criadas, e que seriam
incorporadas ao patrimônio do povo. Havia música para entreter a massa, mas não
uma música de massa, uma música local, linda, autêntica, do Chaco e dos Pampas.
Os escultores, com seus jeitos de pessoas comuns e musculosas eram aplaudidos
com um entusiasmo que somente quem cultiva sua cultura podem fazer.
Foi uma lição de cidadania para mim, que
venho do Recife, cidade cheia de projetos e leis de incentivos à cultura, cuja
Prefeitura mantém uma Lei de Obrigatoriedade de Inserção Obras de Arte nos
edifícios com mais de mil metros quadrados de construção, mas onde o povo –
mesmo os moradores dos edifícios – não participa da escolha dessas obras, ou
como brasileiro, oriundo de um país repleto de instituições públicas e privadas
como a Fundação Bienal de São Paulo, Instituto Itaú, Centro Cultural Banco do
Brasil, Casa França Brasil, etc. etc. etc., e tantos museus, e tantos outros
programas e projetos. Verificamos que todas estas instituições, para
funcionarem de acordo com o sistema implantado, público ou privado, estão
voltadas para o marketing, não para a produção de linguagem, que
proporciona a cultura, dirigidas apenas para a promoção de ídolos, para o
estrelato, ou então para o assistencialismo culposo da cultura da pobreza que
este mesmo sistema promoveu, sem contar com o “meio-de-campo”, a produção
normal da arte que acontece em qualquer localidade, e principalmente sem se
dirigir ao público geral, o cidadão de qualquer cidade, das capitais que estão
fora do eixo Rio/São Paulo, o verdadeiro público que reside em qualquer recanto
deste país que possui mais de cinco mil municípios onde floresce o espírito
criativo de nosso povo – pois o Brasil é lá dentro – e onde as políticas
públicas, se usadas adequadamente, poderiam cumprir seus verdadeiros papeis
sociais mediando com o povo o saber de seus criadores.
Um salão inserido no
binômio educação e cultura
Raul Córdula
No meio do território nordestino, na região onde se
encontram Alagoas, Pernambuco e Paraíba e Rio Grande do Norte, as curadorias de
arte se desenvolveram nas décadas de 1960 a 1980. Atuação do curador brasileiro
que vivia na França, Paulo Sergio Duarte, que foi convidado para compor o grupo
que formou, em 1978, o no Núcleo de Arte Contemporânea – NAC, da Universidade
Federal da Paraíba, foi fundamental para a discussão deste patamar da arte da
época: a arte contemporânea. Recém-chegado de Paris ele nos trouxe a prática dos
sistemas de mediação entre instituições e público que teria observado e participado
e praticado por lá. À frente da coordenadoria dessa importante experiência de
extensão universitária tivemos oportunidade de acompanhar seu trabalho e
aprender com sua experiência. Já em 1979 as exposições apresentadas pelo NAC
eram mediadas com o público através de alunos da cadeira de prática de ensino
do Curso de Educação Artística da UFPB.
Na década de 90 tivemos no Recife o trabalho renovador de
Marcus Lontra à frente do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – MAMAM.
Marcus criou um verdadeiro sistema curatorial dentro de uma instituição pública
– o MAMAM pertence ao Município. O Instituto de Cultura da Fundação Joaquim
Nabuco através de sua Coordenação de Artes Plásticas e o Instituto de Artes
Plásticas – IAC – do Centro de Artes da Universidade Federal de Pernambuco,
assim como, mais recentemente, o Instituto Cultural Bandepe e o Instituto
Ricardo Brennand – IRB – também seguem padrões curatoriais de nível semelhante.
O mesmo acontece na vizinha cidade de João Pessoa, no Espaço Cultural José Lins
do Rego, na Usina Cultural SAELPA e no Centro
Cultural São Francisco.
A partir da experiência adquirida no NAC, ao implantar o 1º
Salão MamBahia de Artes Plásticas em 1994, propusemos um salão que se colocasse
além de um mero concurso para artistas, um salão que chegasse a ser um festival
de arte destinado à integração dos artistas com a sociedade e à mediação de
suas obras com o público. A equipe que coordenamos acreditou na ideia de um
salão voltado para o público, não apenas um salão para os artistas, pois
assim teríamos uma forma de o Estado devolver parte do que o povo paga para
exercer seus direitos de cidadão. Para tanto contamos com a já existente e
competente equipe de mediadores formada pelo MamBahia que teve à frente o
museólogo Heitor Reis. De certa forma, em 1976 já tínhamos trabalhado com algo
semelhante quando secretariamos o “3º Salão de Arte Global de Pernambuco – O
Artesanato e o Homem”, composto por uma grande mostra do artesanato nordestino,
concurso de fotografia e monografia, simpósio internacional sobre o futuro do
artesanato, wokshops e feiras.
Mas o que colocou nosso trabalho dentro de uma atividade
curatorial em escala educativa foi a responsabilidade de projetar e exercer a
curadoria do “Salão Pernambucano de Artes Plásticas 2000”. O convite partiu da
museóloga Maria Regina Batista, na época chefe do Departamento de Museus da
Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – FUNDARPE,
responsável pela realização do Salão. Realizamos algo voltado para o público,
tendo na ação educativa seu foco principal, seu partido curatorial, e isto foi,
sem dúvida, a razão do seu ineditismo e sua importância como linha de limite
entre a realização dos salões de arte na nossa região.
Para reeditar o salão pernambucano, desativado desde 1993
(esta seria a sua 45ª versão), foi necessário pensar em algo representativo da
atualidade da arte – a arte contemporânea, sintonizando-o com salões que não
teriam perdido sua continuidade ou com eventos referentes à arte atual que
acontecem em outras cidades, mas sem perder de vista o nível de excelência que
esta retomada exigiria. Propusemos então o redesenho de sua estrutura e seu
significado em relação aos salões anteriores, que pouco saiam da área de
influência dos próprios artistas neles envolvidos. Ousamos direcioná-lo para o
público utilizando métodos destinados a privilegiar a ação didática num formato
acessível e amplo.
Direcionar, porém, um espetáculo tradicionalmente ocultado,
por um lado, pelo mercado, por outro, pelo corporativismo de muitos artistas,
não foi tarefa fácil. Foi necessário esclarecer as dúvidas, relacionar as
certezas e projetar as ações que resultaram no trabalho final.
Fez-se absolutamente necessário, dentro da estrutura
político-administrativa em que nos encontrávamos restabelecer a conexão entre
educação e cultura. Para tanto montamos uma Coordenação Educativa, entregue à
professora Joana D’Arc Lima com a parceria das Secretarias de Educação do
Estado e do Município, e do Centro de Artes da Universidade Federal. Esta ação
educativa foi voltada para o alunado de 1º e 2º graus da rede pública de ensino
e visou fomentar no olhar da juventude – crítico por excelência – o olhar de um
público para a arte contemporânea. O atendimento desse público-alvo ficou a
cargo de um corpo de monitores composto por integrantes das instituições
parceiras, treinados especialmente e apoiado por material didático como
cartilhas para o professor e cartilhas para o aluno, de forma a proporcionar um
retorno ao tema na sala de aula. Com isso o Salão ajudou a quebrar o tabu
mercadológico que empresta à arte apenas sua função de objeto de troca,
omitindo o signo de conhecimento que ela compreende, seu verdadeiro sentido.
Outro importante aspecto curatorial foi a relação que o
salão estabeleceu com a história, tanto a dos Salões de Pernambuco quanto à da
arte no Recife. Para esta abordagem foi montada uma exposição antológica, com cinquenta
obras de cinquenta artistas premiados nos Salões anteriores (prêmios de
aquisição), desde 1942, quando o Salão foi criado como Salão Oficial de
Pintura. Todas as obras fazem parte do acervo do Museu do Estado. A antologia
teve o mesmo tratamento didático que a exposição dos artistas selecionados – o
núcleo do Salão – e cumpriu a função de apresentar à população o tesouro
acumulado através da realização desses salões – lembramos que este foi o
quadragésimo quinto de uma série de eventos que se repetia, com algumas
interrupções, há cinquenta e oito anos. Este setor do salão aconteceu no próprio
Museu do Estado e foi montado por sua equipe técnica, porém com a mesma
coordenação educativa da equipe curadora, e sob nossa supervisão. Pretendemos
com isso, além de apresentar ao público este recorte do tesouro artístico do
Estado, justificar de forma material para os cidadãos comuns, contribuintes, a
importância da existência de eventos culturais como salões de arte e seus
custos financeiros.
Ainda na área da amostragem, o Salão organizou uma Mostra
de Filme e Vídeo de Artista, categoria em que o Recife tem uma importante
representação através da coleção de Paulo Bruscky e a teorização de Celso
Marconi, curadores deste setor. O filme e o vídeo de artista têm estética
própria, independente do documentário, cinema de vanguarda, vídeo-reportagem ou
do vídeo de autor, trata-se de vídeo de artista plástico, situações visíveis
fixadas pela câmera como obra plástica ou conceitual independente dos cânones
da estética cinematográfica. Do acervo programado constaram obras históricas
como os experimentos de Luís Buñuel, Salvador Dali, René Clair, Germaine Dulac,
Man Ray, Marcel Duchamp e Fernando Leger, filmes do Grupo, Fluxus, dos
brasileiros Ana Bela Geiger, Lígia Pape, Antonio Carlos Fontoura, Maria Lúcia
Cattani e dos pernambucanos Paulo Bruscky, Ypiranga Filho, Daniel Santiago,
Marcos Hanois, e outros.
Para abrir a área de discussão sobre o Salão foi montado um
Ciclo de Debates sobre a atualidade da crítica de arte no Brasil. Este ciclo,
organizado pelo coordenador de artes plásticas do Instituto de Cultura da
Fundação Joaquim Nabuco, Moacir dos Anjos. É sabido que esta fundação
colocava-se na época como ilha de excelência na teorização da cultura
contemporânea do Nordeste. Os temas abordados foram “O curador como autor”, “A
Morte da arte e a crise da crítica” e “Instituições culturais e poder
simbólico”, debatidos com o público por personalidades do meio da crítica de
arte como Lisette Lagnado, Aracy Amaral, Daniela Buosso, Agnaldo farias, Ivo
Mesquita, Rodrigo Naves, Luiz Camilo Osório e Marcos Lontra.
Finalmente o núcleo do Salão: a exposição dos 30 artistas
selecionados entre os 561 inscritos (30 artista foi o limite, conforme o
regulamente do Salão, em conformidade com os limites de espaço disponível).
Neste aspecto a curadoria passou a ser coletiva, encaminhada pela comissão de
seleção onde nós participamos, ao lado de Fernando Cocchiarale, João Henrique
do Amaral, Marcos Lontra e Tadeu Chiarelli. Os critérios da Comissão revelaram
a intenção de dar visibilidade às facetas mais diversificadas da experimentação
da arte de hoje.
Uma curadoria geral de um Salão, como acontece numa
curadoria de uma Bienal como a de São Paulo, por exemplo, difere da curadoria
de uma exposição comum, ela constitui-se numa ideia geral onde as partes – os
diversos eventos paralelos – convergem para seu objetivo principal, sua
apresentação ao público, suas estratégias, suas finalidades. Não poderia haver,
por conta do regulamento – cujas modificações não foram permitidas pelo
departamento Jurídico da FUNDARPE – uma escolha ou convite aos artistas que
compuseram o núcleo do salão, fomos obrigados a realizar uma seleção
tradicional como se estivéssemos propondo um salão belasarteano. Na seleção das
obras foi desenhada, então, a expressão final da mostra: uma exposição cuja
tônica foi a relação do corpo com a arte.
Tivemos então uma exposição composta por dez instalações,
seis fotografias, duas imagens digitalizadas, seis desenhos, duas pinturas, um
vídeo de artista, um objeto, uma performance e uma escultura. As categorias não
tradicionais, contemporâneas, foram apresentadas por vinte e um artistas, as
tradicionais por nove.
Sintetizando as tendências dos artistas verificamos o domínio
do corpo e da sexualidade nos artistas Beatriz Pimenta, Amílcar Packer,
Frederico Dalton, Paulo Buennos, Fábio Noronha e Luciano Zanette; a condição
feminina em Márcia X e Karen Aune; abordagens da condição da infância e da
adolescência em Márcia X, Elder Rocha prêmio e Edney Antunes; a questão
da violência em Edney Antunes, Frederico Dalton prêmio e o Grupo Camelo
– Paulo Meira, Ismael Portela e Marcelo Coutinho; relações
luz/espaço/matéria/movimento nas obras de João Carlos de Souza, Francisco Faria
e Carla Guagliardi; a sinalética urbana e heráldica em Giancarlo Lorenci,
Emmanuel Nassar prêmio e Alexandre Nóbrega; minimalidade da cor e da
imagem nos desenhos e pinturas de Isaura Pena, Alexandre Nóbrega, Emmanuel
Nassar, Fabiano Gonper, Marcelo Sola e Fábio Noronha; o questionamento da arte
e da instituição nas obras de Jeanine Toledo, Carla Zaccagnini, Oriana Duarte prêmio,
Grupo Telefone Colorido e Katia Prates; construção e desconstrução urbana em Vanessa
Poitena e Rogério Canella; a articulação forma/encaixe/volume nos trabalhos de
Marcelo Silveira prêmio e Ricardo Ventura; a regionalidade contemporânea
de Lourival Batista Patriota, Ricardo Ventura. A comissão de premiação foi
composta por Heitor Reis, Aracy Amaral, Daniela Buosso, Marcus Lontra e Raul
Córdula.
A equipe de 30 mediadores entre o salão e o público, foi
formada por 20 professores de educação artística da rede pública de ensino,
sendo 10 do Município e 10 do Estado, e 10 alunos do Centro de Artes da UFPE. O
treinamento foi realizado por nosso intermédio e o da professora Joana D’Arc
Lima, envolvendo amplos questionamentos sobre métodos e padrões sociais. A obra
de Márcia X, por exemplo, que tratava a sexualidade através de relacionamentos
entre bonecas Barbies e gatinhos de pelúcia, foi objeto de preocupação das
professoras a respeito da abordagem de alunos com crianças. As fotografias de
Beatriz Pimenta e Amílcar Parker onde corpos nus explicitavam órgãos sexuais de
homens e mulheres também foi fonte de questionamento didático, todos eles
encaminhados de forma a não ferir questões éticas ou legais.
O treinamento da equipe de mediadores constituiu-se,
portanto, numa formação junto à curadoria. Seus efeitos imediatos foram a
ampliação do universo pedagógico-cultural dessa própria equipe de professores
com formação em arte-educação e alunos desta matéria. Pouco tempo depois a
exposição de Rodin enviada pela Pinacoteca do Estado de São Paulo foi montada
no MAMAM num formato semelhante, com algo em torno de 60.000 visitas, com um
intenso trabalho do seu corpo de mediadores formado basicamente pelos mesmos no
Salão Pernambucano, sendo a outra parte a equipe implantada por Marcus Lontra,
responsável pelo atendimento da exposição do Panorama da Arte Brasileira 1999
cujo curador foi Tadeu Chiarelli. As citadas mostras não tiveram, porém, o
aparato didático, com cartilhas impressas para alunos e professores, que
possibilitaram esta “mão dupla” museu/escola, implantado por nós no Recife.
Quando foi entregue ao público o Instituto Cultural Brennand com a exposição da
obra de Eckhout, a mesma equipe foi contratada para realizar sua ação
educativa. Os integrantes da equipe consideraram que a mostra de Eckhout, que
recebeu 160.000 visitas foi, do ponto de vista da metodologia, uma extensão, ou
consequência, do Salão Pernambucano.
O Salão Pernambucano 2000 atendeu 12.000 alunos em 40 dias
de exposição, além de ter recebido o público geral em quantidade não computada.
A equipe de mediadores não apenas recebeu os alunos, mas os atendeu. Atendeu
num padrão didaticamente correto, superando as dificuldades de transporte,
horários, deslocamentos de professores e alunos das salas de aula, dificuldades
de comportar carga humana no edifício – Observatório Cultural Torre Malakoff –
de difícil trânsito interno. O partido curatorial – um salão voltado para o
público – atendeu ao alunado de 1º e 2º graus, ao professorado da rede
pública e aos alunos do Curso Educação Artística que no seu universo
profissional ainda não enxergavam até então a possibilidade de atuar além da
sala de aula de escolas públicas ou privadas, e passaram a vislumbrar a
oportunidade de atuação como agentes mediadores entre os mais importantes
acontecimentos da cultura visual e o público do Recife. Estava, portanto,
inaugurada na cidade a era das curadorias de arte voltadas para o binômio
educação e cultura.
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