Um salão inserido no binômio educação e cultura
No meio do território nordestino, na região onde se
encontram Alagoas, Pernambuco e Paraíba e Rio Grande do Norte, as curadorias de
arte se desenvolveram nas décadas de 1960 a 1980. Atuação do curador brasileiro
que vivia na França, Paulo Sergio Duarte, que foi convidado para compor o grupo
que formou, em 1978, o no Núcleo de Arte Contemporânea – NAC, da Universidade
Federal da Paraíba, foi fundamental para a discussão deste patamar da arte da
época: a arte contemporânea. Recém-chegado de Paris ele nos trouxe a prática dos
sistemas de mediação entre instituições e público que teria observado e participado
e praticado por lá. À frente da coordenadoria dessa importante experiência de
extensão universitária tivemos oportunidade de acompanhar seu trabalho e
aprender com sua experiência. Já em 1979 as exposições apresentadas pelo NAC
eram mediadas com o público através de alunos da cadeira de prática de ensino
do Curso de Educação Artística da UFPB.
Na década de 90 tivemos no Recife o trabalho renovador de
Marcus Lontra à frente do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – MAMAM.
Marcus criou um verdadeiro sistema curatorial dentro de uma instituição pública
– o MAMAM pertence ao Município. O Instituto de Cultura da Fundação Joaquim
Nabuco através de sua Coordenação de Artes Plásticas e o Instituto de Artes
Plásticas – IAC – do Centro de Artes da Universidade Federal de Pernambuco,
assim como, mais recentemente, o Instituto Cultural Bandepe e o Instituto
Ricardo Brennand – IRB – também seguem padrões curatoriais de nível semelhante.
O mesmo acontece na vizinha cidade de João Pessoa, no Espaço Cultural José Lins
do Rego, na Usina Cultural SAELPA e no Centro
Cultural São Francisco.
A partir da experiência adquirida no NAC, ao implantar o 1º Salão MamBahia de Artes Plásticas em 1994, propusemos um salão que se colocasse além de um mero concurso para artistas, um salão que chegasse a ser um festival de arte destinado à integração dos artistas com a sociedade e à mediação de suas obras com o público. A equipe que coordenamos acreditou na ideia de um salão voltado para o público, não apenas um salão para os artistas, pois assim teríamos uma forma de o Estado devolver parte do que o povo paga para exercer seus direitos de cidadão. Para tanto contamos com a já existente e competente equipe de mediadores formada pelo MamBahia que teve à frente o museólogo Heitor Reis. De certa forma, em 1976 já tínhamos trabalhado com algo semelhante quando secretariamos o “3º Salão de Arte Global de Pernambuco – O Artesanato e o Homem”, composto por uma grande mostra do artesanato nordestino, concurso de fotografia e monografia, simpósio internacional sobre o futuro do artesanato, wokshops e feiras.
Mas o que colocou nosso trabalho dentro de uma atividade
curatorial em escala educativa foi a responsabilidade de projetar e exercer a
curadoria do “Salão Pernambucano de Artes Plásticas 2000” . O convite partiu da
museóloga Maria Regina Batista, na época chefe do Departamento de Museus da
Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – FUNDARPE,
responsável pela realização do Salão. Realizamos algo voltado para o público,
tendo na ação educativa seu foco principal, seu partido curatorial, e isto foi,
sem dúvida, a razão do seu ineditismo e sua importância como linha de limite
entre a realização dos salões de arte na nossa região.
Para reeditar o salão pernambucano, desativado desde 1993
(esta seria a sua 45ª versão), foi necessário pensar em algo representativo da
atualidade da arte – a arte contemporânea, sintonizando-o com salões que não
teriam perdido sua continuidade ou com eventos referentes à arte atual que
acontecem em outras cidades, mas sem perder de vista o nível de excelência que
esta retomada exigiria. Propusemos então o redesenho de sua estrutura e seu
significado em relação aos salões anteriores, que pouco saiam da área de
influência dos próprios artistas neles envolvidos. Ousamos direcioná-lo para o
público utilizando métodos destinados a privilegiar a ação didática num formato
acessível e amplo.
Direcionar, porém, um espetáculo tradicionalmente ocultado, por um lado, pelo mercado, por outro, pelo corporativismo de muitos artistas, não foi tarefa fácil. Foi necessário esclarecer as dúvidas, relacionar as certezas e projetar as ações que resultaram no trabalho final.
Fez-se absolutamente necessário, dentro da estrutura
político-administrativa em que nos encontrávamos restabelecer a conexão entre
educação e cultura. Para tanto montamos uma Coordenação Educativa, entregue à
professora Joana D’Arc Lima com a parceria das Secretarias de Educação do
Estado e do Município, e do Centro de Artes da Universidade Federal. Esta ação
educativa foi voltada para o alunado de 1º e 2º graus da rede pública de ensino
e visou fomentar no olhar da juventude – crítico por excelência – o olhar de um
público para a arte contemporânea. O atendimento desse público-alvo ficou a
cargo de um corpo de monitores composto por integrantes das instituições
parceiras, treinados especialmente e apoiado por material didático como
cartilhas para o professor e cartilhas para o aluno, de forma a proporcionar um
retorno ao tema na sala de aula. Com isso o Salão ajudou a quebrar o tabu
mercadológico que empresta à arte apenas sua função de objeto de troca,
omitindo o signo de conhecimento que ela compreende, seu verdadeiro sentido.
Outro importante aspecto curatorial foi a relação que o
salão estabeleceu com a história, tanto a dos Salões de Pernambuco quanto à da
arte no Recife. Para esta abordagem foi montada uma exposição antológica, com cinquenta
obras de cinquenta artistas premiados nos Salões anteriores (prêmios de
aquisição), desde 1942, quando o Salão foi criado como Salão Oficial de
Pintura. Todas as obras fazem parte do acervo do Museu do Estado. A antologia
teve o mesmo tratamento didático que a exposição dos artistas selecionados – o
núcleo do Salão – e cumpriu a função de apresentar à população o tesouro
acumulado através da realização desses salões – lembramos que este foi o
quadragésimo quinto de uma série de eventos que se repetia, com algumas
interrupções, há cinquenta e oito anos. Este setor do salão aconteceu no próprio
Museu do Estado e foi montado por sua equipe técnica, porém com a mesma
coordenação educativa da equipe curadora, e sob nossa supervisão. Pretendemos
com isso, além de apresentar ao público este recorte do tesouro artístico do
Estado, justificar de forma material para os cidadãos comuns, contribuintes, a
importância da existência de eventos culturais como salões de arte e seus
custos financeiros.
Ainda na área da amostragem, o Salão organizou uma Mostra de Filme e Vídeo de Artista, categoria em que o Recife tem uma importante representação através da coleção de Paulo Bruscky e a teorização de Celso Marconi, curadores deste setor. O filme e o vídeo de artista têm estética própria, independente do documentário, cinema de vanguarda, vídeo-reportagem ou do vídeo de autor, trata-se de vídeo de artista plástico, situações visíveis fixadas pela câmera como obra plástica ou conceitual independente dos cânones da estética cinematográfica. Do acervo programado constaram obras históricas como os experimentos de Luís Buñuel, Salvador Dali, René Clair, Germaine Dulac, Man Ray, Marcel Duchamp e Fernando Leger, filmes do Grupo, Fluxus, dos brasileiros Ana Bela Geiger, Lígia Pape, Antonio Carlos Fontoura, Maria Lúcia Cattani e dos pernambucanos Paulo Bruscky, Ypiranga Filho, Daniel Santiago, Marcos Hanois, e outros.
Para abrir a área de discussão sobre o Salão foi montado um
Ciclo de Debates sobre a atualidade da crítica de arte no Brasil. Este ciclo,
organizado pelo coordenador de artes plásticas do Instituto de Cultura da
Fundação Joaquim Nabuco, Moacir dos Anjos. É sabido que esta fundação
colocava-se na época como ilha de excelência na teorização da cultura
contemporânea do Nordeste. Os temas abordados foram “O curador como autor”, “A
Morte da arte e a crise da crítica” e “Instituições culturais e poder
simbólico”, debatidos com o público por personalidades do meio da crítica de
arte como Lisette Lagnado, Aracy Amaral, Daniela Buosso, Agnaldo farias, Ivo
Mesquita, Rodrigo Naves, Luiz Camilo Osório e Marcos Lontra.
Finalmente o núcleo do Salão: a exposição dos 30 artistas
selecionados entre os 561 inscritos (30 artista foi o limite, conforme o
regulamente do Salão, em conformidade com os limites de espaço disponível).
Neste aspecto a curadoria passou a ser coletiva, encaminhada pela comissão de
seleção onde nós participamos, ao lado de Fernando Cocchiarale, João Henrique
do Amaral, Marcos Lontra e Tadeu Chiarelli. Os critérios da Comissão revelaram
a intenção de dar visibilidade às facetas mais diversificadas da experimentação
da arte de hoje.
Uma curadoria geral de um Salão, como acontece numa curadoria de uma Bienal como a de São Paulo, por exemplo, difere da curadoria de uma exposição comum, ela constitui-se numa ideia geral onde as partes – os diversos eventos paralelos – convergem para seu objetivo principal, sua apresentação ao público, suas estratégias, suas finalidades. Não poderia haver, por conta do regulamento – cujas modificações não foram permitidas pelo departamento Jurídico da FUNDARPE – uma escolha ou convite aos artistas que compuseram o núcleo do salão, fomos obrigados a realizar uma seleção tradicional como se estivéssemos propondo um salão belasarteano. Na seleção das obras foi desenhada, então, a expressão final da mostra: uma exposição cuja tônica foi a relação do corpo com a arte.
Tivemos então uma exposição composta por dez instalações,
seis fotografias, duas imagens digitalizadas, seis desenhos, duas pinturas, um
vídeo de artista, um objeto, uma performance e uma escultura. As categorias não
tradicionais, contemporâneas, foram apresentadas por vinte e um artistas, as
tradicionais por nove.
Sintetizando as tendências dos artistas verificamos o domínio
do corpo e da sexualidade nos artistas Beatriz Pimenta, Amílcar Packer,
Frederico Dalton, Paulo Buennos, Fábio Noronha e Luciano Zanette; a condição
feminina em Márcia X e Karen Aune; abordagens da condição da infância e da
adolescência em Márcia X, Elder Rocha prêmio e Edney Antunes; a questão
da violência em Edney Antunes, Frederico Dalton prêmio e o Grupo Camelo
– Paulo Meira, Ismael Portela e Marcelo Coutinho; relações
luz/espaço/matéria/movimento nas obras de João Carlos de Souza, Francisco Faria
e Carla Guagliardi; a sinalética urbana e heráldica em Giancarlo Lorenci,
Emmanuel Nassar prêmio e Alexandre Nóbrega; minimalidade da cor e da
imagem nos desenhos e pinturas de Isaura Pena, Alexandre Nóbrega, Emmanuel
Nassar, Fabiano Gonper, Marcelo Sola e Fábio Noronha; o questionamento da arte
e da instituição nas obras de Jeanine Toledo, Carla Zaccagnini, Oriana Duarte prêmio,
Grupo Telefone Colorido e Katia Prates; construção e desconstrução urbana em Vanessa
Poitena e Rogério Canella; a articulação forma/encaixe/volume nos trabalhos de
Marcelo Silveira prêmio e Ricardo Ventura; a regionalidade contemporânea
de Lourival Batista Patriota, Ricardo Ventura. A comissão de premiação foi
composta por Heitor Reis, Aracy Amaral, Daniela Buosso, Marcus Lontra e Raul
Córdula.
A equipe de 30 mediadores entre o salão e o público, foi
formada por 20 professores de educação artística da rede pública de ensino,
sendo 10 do Município e 10 do Estado, e 10 alunos do Centro de Artes da UFPE. O
treinamento foi realizado por nosso intermédio e o da professora Joana D’Arc
Lima, envolvendo amplos questionamentos sobre métodos e padrões sociais. A obra
de Márcia X, por exemplo, que tratava a sexualidade através de relacionamentos
entre bonecas Barbies e gatinhos de pelúcia, foi objeto de preocupação das
professoras a respeito da abordagem de alunos com crianças. As fotografias de
Beatriz Pimenta e Amílcar Parker onde corpos nus explicitavam órgãos sexuais de
homens e mulheres também foi fonte de questionamento didático, todos eles
encaminhados de forma a não ferir questões éticas ou legais.
O treinamento da equipe de mediadores constituiu-se,
portanto, numa formação junto à curadoria. Seus efeitos imediatos foram a
ampliação do universo pedagógico-cultural dessa própria equipe de professores
com formação em arte-educação e alunos desta matéria. Pouco tempo depois a
exposição de Rodin enviada pela Pinacoteca do Estado de São Paulo foi montada
no MAMAM num formato semelhante, com algo em torno de 60.000 visitas, com um
intenso trabalho do seu corpo de mediadores formado basicamente pelos mesmos no
Salão Pernambucano, sendo a outra parte a equipe implantada por Marcus Lontra,
responsável pelo atendimento da exposição do Panorama da Arte Brasileira 1999
cujo curador foi Tadeu Chiarelli. As citadas mostras não tiveram, porém, o
aparato didático, com cartilhas impressas para alunos e professores, que
possibilitaram esta “mão dupla” museu/escola, implantado por nós no Recife.
Quando foi entregue ao público o Instituto Cultural Brennand com a exposição da
obra de Eckhout, a mesma equipe foi contratada para realizar sua ação
educativa. Os integrantes da equipe consideraram que a mostra de Eckhout, que
recebeu 160.000 visitas foi, do ponto de vista da metodologia, uma extensão, ou
consequência, do Salão Pernambucano.
O Salão Pernambucano 2000 atendeu 12.000 alunos em 40 dias
de exposição, além de ter recebido o público geral em quantidade não computada.
A equipe de mediadores não apenas recebeu os alunos, mas os atendeu. Atendeu
num padrão didaticamente correto, superando as dificuldades de transporte,
horários, deslocamentos de professores e alunos das salas de aula, dificuldades
de comportar carga humana no edifício – Observatório Cultural Torre Malakoff –
de difícil trânsito interno. O partido curatorial – um salão voltado para o
público – atendeu ao alunado de 1º e 2º graus, ao professorado da rede
pública e aos alunos do Curso Educação Artística que no seu universo
profissional ainda não enxergavam até então a possibilidade de atuar além da
sala de aula de escolas públicas ou privadas, e passaram a vislumbrar a
oportunidade de atuação como agentes mediadores entre os mais importantes
acontecimentos da cultura visual e o público do Recife. Estava, portanto,
inaugurada na cidade a era das curadorias de arte voltadas para o binômio
educação e cultura.
A partir da experiência adquirida no NAC, ao implantar o 1º Salão MamBahia de Artes Plásticas em 1994, propusemos um salão que se colocasse além de um mero concurso para artistas, um salão que chegasse a ser um festival de arte destinado à integração dos artistas com a sociedade e à mediação de suas obras com o público. A equipe que coordenamos acreditou na ideia de um salão voltado para o público, não apenas um salão para os artistas, pois assim teríamos uma forma de o Estado devolver parte do que o povo paga para exercer seus direitos de cidadão. Para tanto contamos com a já existente e competente equipe de mediadores formada pelo MamBahia que teve à frente o museólogo Heitor Reis. De certa forma, em 1976 já tínhamos trabalhado com algo semelhante quando secretariamos o “3º Salão de Arte Global de Pernambuco – O Artesanato e o Homem”, composto por uma grande mostra do artesanato nordestino, concurso de fotografia e monografia, simpósio internacional sobre o futuro do artesanato, wokshops e feiras.
Direcionar, porém, um espetáculo tradicionalmente ocultado, por um lado, pelo mercado, por outro, pelo corporativismo de muitos artistas, não foi tarefa fácil. Foi necessário esclarecer as dúvidas, relacionar as certezas e projetar as ações que resultaram no trabalho final.
Ainda na área da amostragem, o Salão organizou uma Mostra de Filme e Vídeo de Artista, categoria em que o Recife tem uma importante representação através da coleção de Paulo Bruscky e a teorização de Celso Marconi, curadores deste setor. O filme e o vídeo de artista têm estética própria, independente do documentário, cinema de vanguarda, vídeo-reportagem ou do vídeo de autor, trata-se de vídeo de artista plástico, situações visíveis fixadas pela câmera como obra plástica ou conceitual independente dos cânones da estética cinematográfica. Do acervo programado constaram obras históricas como os experimentos de Luís Buñuel, Salvador Dali, René Clair, Germaine Dulac, Man Ray, Marcel Duchamp e Fernando Leger, filmes do Grupo, Fluxus, dos brasileiros Ana Bela Geiger, Lígia Pape, Antonio Carlos Fontoura, Maria Lúcia Cattani e dos pernambucanos Paulo Bruscky, Ypiranga Filho, Daniel Santiago, Marcos Hanois, e outros.
Uma curadoria geral de um Salão, como acontece numa curadoria de uma Bienal como a de São Paulo, por exemplo, difere da curadoria de uma exposição comum, ela constitui-se numa ideia geral onde as partes – os diversos eventos paralelos – convergem para seu objetivo principal, sua apresentação ao público, suas estratégias, suas finalidades. Não poderia haver, por conta do regulamento – cujas modificações não foram permitidas pelo departamento Jurídico da FUNDARPE – uma escolha ou convite aos artistas que compuseram o núcleo do salão, fomos obrigados a realizar uma seleção tradicional como se estivéssemos propondo um salão belasarteano. Na seleção das obras foi desenhada, então, a expressão final da mostra: uma exposição cuja tônica foi a relação do corpo com a arte.
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