Silvio Hansen - a vanguarda ainda existe

A vanguarda existe tanto na guerra quanto na arte. O sentido de vanguarda invadiu o território da arte e nele incutiu múltiplas manifestações da linguagem, a curiosidade criativa, a interdisciplinaridade e muitas outras questões ausentes da arte tradicional que passaram a existir daí para a frente porque arte é uma atividade humana básica e a vida é um processo dinâmico. Este fenômeno acontece a partir das inquietações que a revolução industrial provocou e ainda provoca no mundo, que tem suas bases na Europa – veja-se a vanguarda russa, o dadaísmo e a obra de Marcel Duchamp, por exemplo, mas lembramos que a repercussão mundial da vanguarda atingiu quase todo o mundo.

O artista de vanguarda é aquele que se coloca no limite de cada período ou tendência artística, é o que dá o passo à frente para que as coisas se modifiquem, é o antimercado, o contra acomodação. Sua arte não se dirige à gratificação da retina nem combina com o sofá. A arte de vanguarda é inteligência, invenção, e por isso ela é o seu fator de transformação. Não fosse a vanguarda os artistas contemporâneos não existiriam como tal, ela é a passagem de um ponto a outro, da passividade ao inesperado. As referências aos vanguardistas, as citações e apropriações, são freqüentes na arte de agora. Por que não chamar então a arte contemporânea de arte de vanguarda? Porque a arte contemporânea tornou as atitudes vanguardistas numa ocorrência já constituída, já aceita: isso passou a se chamar contemporaneidade, passou a ser a arte da atualidade, o que significa dizer que isto se oficializou como arte também, no seu significado simbólico. O fato é que as artes visuais em sua temporalidade agora integram a arte contemporânea. Há divergências, claro. Mas é preciso dizer que vista assim a arte contemporânea pode se transformar no túmulo da vanguarda, desde que a ousadia e inventividade se torne algo comum, ou medíocre.

Estas reflexões nos assolam ao contemplarmos a obra de Silvio Hansen, artista que me faz pensar que a vanguarda ainda existe, embora poucos se apercebam disso. É que ele continua a criar como fazia há quarenta anos, a inventar seu mundo de objetos como máquinas quem cria máquinas de pensar. O poeta que fala na sua essência humana é o fez um poeta visual – categoria de arte vanguardista – de produção constante; o desenhista que existe nele e nunca perdeu o prumo, e sua obra é uma coleção de metáforas e símbolos típica da vanguarda; o desenhista, escultor e o gravador Silvio Hansen é testemunho da evolução tecnológica que aconteceu nestas últimas décadas, através das quais ele experimentou muitas séries de trabalhos multimídiáticos.

Mas queremos dizer que existem alguns artistas também identificado com a vanguarda que se colocam mais a partir de atitudes individuais, performáticas e até ligados em um período da vanguarda que está superado, pois isto existe nos movimentos artísticos. A noção de que a arte contemporânea determinou “o fim da arte” está muito mal assimilada aqui, pois o que os teóricos quiseram dizer com isto se refere ao sistema de arte que existiu a partir do Renascimento e terminou com a Pop Arte. Na verdade, a arte contemporânea é um estágio da cultura em que nenhuma das características da arte anterior têm condições de serem usadas como elementos de compreensão crítica ou teórica, desde que não se pode avaliar mais a arte como composição formal, composição cromática, desenho, textura, narrativa, registro ou cópia da realidade, geometrização, gestualidade, e inúmeros outros detalhes da obra de arte que colocaram a expressão artística neste período.

As criações de Hansen existem na perspectivado objeto fora do contexto artístico, objeto criado ou transformado com a mesma atitude que tiveram vanguardistas desde Marcel Duchamp até Joseph Beuys. Não há novidade nisso, e a novidade em si pouco tem a ver com a arte, mas existe, sim, linhas que conduzem a criação artística por caminhos que o tempo – a história – e os acontecimentos a fazem se adaptar ao mundo da continuação da arte.

Silvio Hansen é um artista fundamental, especialmente numa cidade como Recife que ainda tem, como modo artístico, o olhar no passado. É fundamental que se observe, ou melhor, que se tire, especialmente de um passado que permanece em nossas \atitudes e nossos fazeres artísticos, que se tire da gaveta a quantidade de obras de arte ligadas à vanguarda e sua consequente comtemporaneidade.

Olinda, 1983

 

 

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