O Demônio da Noite

Alguém reclamou por eu chamar Lula Cortes de Demônio em um texto que escrevi para a revista ARRECIFE do Conselho Municipal de Cultura. Mas quis dizer Demônio do Bem. Não sou adepto da demonologia, ou o conhecimento destas entidades que são créditos em todas as religiões, mas tenho certa simpatia por algumas manifestações demoníacas, desde os pobres diabos, que merecem nossa benevolência, aos Anjos de Luz que tergiversaram aos ensinamentos do Eterno e caíram por Terra. Certo é que o termo Demônio há muito passou a ter outros significados, elogiosos, como o bamba, a pessoa capaz, o que sabe fazer.

O Demônio da Noite que me refiro nesta primeira abordagem ao amigo Lula depois de seu encantamento, nada tem a ver com vampirismo ou coisas que tais, tem a ver com a boemia criativa a que ele se dedicou com tanto empenho, tanto esmero e cuidado. Uma noitada com Lula era algo inesquecível por sua familiaridade com a noite e pela criatividade que se esbanjava dos seus instrumentos musicais, alguns criados por ele como um tricórdio marroquino que ele viu em Rabat e o copiou quando retornou ao Recife, e uma guitarra que tinha como bojo uma enorme concha de caramujo do mar, tudo isso embalado por sua voz no pique da noite.

Com aquele tricórdio, que é um simples braço de violão com trastes e tudo, e armado com três cordas, ele nos deu a beleza de seu primeiro disco: SÁTIVA. Para ele SÁTIVA era uma suposta entidade oriental somente conectada através da música. Foi a época em que ele tomou conhecimento da música indiana e compôs as ragas que estão no disco.

Ele costumava se encontrar com seus espíritos fanfarrões e festeiros, com eles se sintonizava com a trilha musical que não parava de passar dentro dele. Lula externava o som que lhe vibrava internamente como chuva, como ventania.

Chamo à atenção para o fato de que Lula nunca foi um alienado político como era grande parte dos artistas de sua época, basta ler sua poesia para constatar isto, principalmente os escritos da época do Livro das Transformações que Kátia Mesel transformou num dos mais belos livros de artistas que conheço, e isto em plenos anos 60, muito antes de surgir esta categoria de arte contemporânea. Mas o fato de Lula compor e tocar ragas suscitou em algumas mentes vigilantes a ideia da alienação comum aos hippies. Nada disso, as ragas de lula são música pura, da maior qualidade, uma forma de ser da época que levava o artista a se fantasiar para sobreviver.

O Demônio que me refiro, portanto, era aquele homem tocando raga noite adentro, embalando a vigília dos insones e arruinando o sono dos incautos. O Demônio da Noite adentro, na Linha do Tiro, onde o manacá floria e o jasmineiro misturava sua olência aos soníferos vapores da noite.

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