O Anjo Lula
O tempo não pode ser visto apenas como uma sequência de horas, dias, meses e anos: o tempo é curvo, plástico, pegajoso. O que o olho vê são fragmentos do tempo, movimentos da vida, segmentos de histórias e ações que revelam a realidade desta forma triturada que mais conhecemos. O artista, então, parece ser destinado a questionar a realidade, essa realidade a qual nos acomodamos.
Sim, quero dizer que existem tantas realidades quanto forem possíveis, e as possibilidades são infinitas. Podemos, inclusive, escolher qual delas nos interessa, e montar, a partir daí, nossa estratégia pessoal, nossa forma de ser e estar no mundo.
A obra plástica de Lula Cortes, paralela à sua obra musical, transita por aí, por esta vertente que parece ser a coxia do grande palco do mundo, pois ele é principalmente um artista do palco. Ele transita por seus mundos, por seus abismos, sua poesia bárbara e esteticamente brilhante que se confunde com sua maneira de ser, seus signos próprios, seus meios e modos de se relacionar com a vida e com os outros.
Lula Cortes sempre viveu no Recife, circulando pelo do Parque 13 de Maio, pelas quebradas da Linha do Tiro, pelos Altos de Casa Amarela e Zé do Pinho, pelas praias do Pina e de Jaboatão, de Olinda e de Paulista. É um cidadão consciente de seus direitos, deveres e confrontos. Toca, dança, come e bebe o que quer. Pois a vida lhe trata muito bem.
Sua obra nasce daí: de um Recife meio rural e meio cosmopolita, meio provinciano e meio sofisticado, uma cidade capaz de conter artistas como ele, e como seus pares: pintores, músicos, compositores, cantores, escritores e designers. Uma cidade propícia ao desmantelo, ao crime, ao deboche, e ao desespero de ser um dos lugares mais isolados do mundo, nos confins do Atlântico, mas, ao mesmo tempo, cosmopolita.
Conheci sua obra gráfica na Paraíba, no início dos anos 70, quando ele produzia com Zé Ramalho o álbum duplo Paêbiru, fruto de uma sugestão que lhes dei sobre a Pedra do Ingá e suas lendas referentes ao Sumé. Com ele estava sua mulher, Kátia Mesel, e um grupo de amigos apaixonados pelos mistérios neolíticos e mágicos que se apresentavam, entre eles seu cunhado Fred Mesel e Zé da Flauta. Naquele tempo descobríamos o mundo: A Pedra do Ingá, o Sertão paraibano, a maneira de falar do Cariri, e a luz contrastante do Sertão. Descobrimos todos que a Terra é a mãe, nós somos os filhos, e o resto é silêncio (sabíamos disto, mas não sabíamos o que fazer com isto).
Paêbiru é um álbum duplo todo produzido aqui, entre seu ateliê – o Solar dos Mesel em Apipucos – e a fábrica Rozenblith. Compuseram o elenco desta ópera pop Zé da Flauta, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Jarbas Mariz, Dom Troncho, Ivinho, Agrício, Marconi Notaro, o flautista americano Jonathas, o desenhista/cartunista Lailson, o percussionista Israel Semente, o Guitarrista Paulo Rafael e os vocalistas de candomblé Preto e Zé Torumbamba.
Lula Cortes não está só na sua trilha em busca da luz (toda procura é pela luz), ele divide sua procura com outros artistas, poetas, deprimidos, bipolares, carnavalescos, foliões, desesperados, malucos, ripongas (Rodolfo Mesquita disse uma vez a Rodolfo Aureliano que riponga era punk, astrológico e macrobiótico), políticos, esquerdistas, esquisitos, aleijados, moucos, cegos, desgraçados e desamparados.
Fernando Monteiro me disse uma vês que o Recife não é como qualquer cidade, ele se parece com Alexandria. Talvez ele quisesse dizer que a biblioteca destruída, enterrada, simbolicamente desaparecida, fosse a metáfora do Recife: tão rico em seu miolo, tão pobre em sua casca, tão nobre em sua pobreza, tão rica em sua desgraça. A “biblioteca”, com seus conhecimentos judaicos, holandeses, eclesiásticos está oculta neste mangue movediço que nos abraça e nos nutre, mas não se mostra... Certa vez encontrei numa esquina do Bairro do Recife, no meio da noite, um artista do Grupo Camelo chorando emocionado. Por que, meu amigo? Ele respondeu: “O Recife é tudo...”
Mas ninguém desenhou melhor o estado de espírito do Recife dos anos 70 do que Lula Cortes. Desenhou, versejou, fez músicas e editou. Na verdade, temos que considerar que Lula não trabalhou só, Kátia foi sua força e sua musa. Ela, design gráfica, projetou uma estética associada à precariedade, com edições de livros e discos que partia do papel barato ou da sobra da gráfica, mas que atingiam um encanto jamais superado pelos desenhadores daqui.
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