Manifesto da Resistência em Resistencia

A grande maioria de nós, brasileiros, vivemos olhando para o Oceano o, Atlântico em busca da Europa que não alcançamos com os olhos, de costas para o Brasil e de costas para a América do Sul, nosso território fundamental. Parece que deixamos do outro lado do Atlântico alguma coisa que não conseguimos recuperar. Nossa identidade? Nossa história? Nossas guerras? Nossa honra?

 
Por que não conseguimos nos integrar às nossas matas em vez de queimá-las? Porque não conseguimos nos aliar com os povos indígenas, em vez de excluí-los, escravizá-los, dizimá-los? Que vergonha!
 
De Norte a Sul, de Porto Alegre a Manaus, passando por cidades de importante presença cultural como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Belém, a maioria dos artistas brasileiros de agora vivem e pensam numa aventura irreal, distante do povo, sonhando com Nova Iorque, Londres, Berlim, olhando o oceano e o céu, criando uma arte distante das raízes étnicas da América Latina, que não leva em conta o Pantanal, a Amazônia, os Andes, o Lago Titicaca, os Pampas, o Chaco, o Rio Paraná, os povos Cariris, Ianomanis, Kadiwéus, Tupis, Guaranis, Tapuias, Tairarius, Incas, Nascas, Maias, Astecas e tantos outros povos e línguas que formam este triste, porém grandioso Continente. Sim, a América do Sul é triste, mas por que é triste?
 
Ao aceitar o convite para integrar o júri de premiação desta Bienal Internacional de Escultura que acontece na cidade de Resistência, no Charco argentino, importante produção da Fundacion Urunday conduzida de forma exemplar pelo escultor Fabriciano Gomes, dissemos que iríamos falar sobre arte e pobreza porque conhecemos de perto a pobreza do povo brasileiro. Mas depois de ver esta cidade luminosa, ágil, expressiva, que mantem em praça pública mais de trezentas esculturas de artistas modernos, mais da metade delas obras premiadas nas Bienais anteriores a esta, nos lembramos de onde viemos e pensamos melhor e modificamos nossa fala: nosso povo parece pobre, especialmente o povo de nossa Região, o Nordeste brasileiro, mas somos pobres apenas de dinheiro, pois ainda somos dominados por uma classe colonialista e perversa. Mas como pode ser pobre um povo que vive num dos continentes mais ricos do mundo em recursos naturais e dono de culturas mestiças de altíssima expressão que apontam para o futuro das etnias do mundo, como os povos irmãos brasileiros e argentinos?
 
Então, o que queremos propor como tema desta fala é exatamente esta questão: como um povo tão rico pode parecer tão pobre? Como algumas nações podem ser tão cruéis com seus filhos? Como e por que pode existir pobreza na América Latina? Porque ainda sofremos da ideia esquizofrênica de que o poder nos impôs, no decorrer de toda nossa história, uma ideia de isolamento e divisão entre os nossos povos.
 
Pensando melhor, o que desejamos anunciar é a riqueza, e não a pobreza da América Latina.
 
Não será a arte de raízes profundas, ligada povos autóctones, que estamos querendo dizer que é forte, renovadora e libertária? Sim, é isto que queremos dizer, é isto que finalmente queremos que esteja claro neste discurso-manifesto. Deveríamos também mostrar imagens do que consideramos arte de gente pobre, quando propusemos ao escultor Fabriciano Gomes, curador da Bienal, falar ao público daqui. Mas pra que mostrar mais imagens de arte nesta festa para o olhar que é esta Bienal Del Chaco da cidade das mil esculturas?
 
Os críticos de arte brasileiros Frederico Moraes, Aracy Amaral, Frederico Moraes e Roberto Pontual e a colombiana Marta Traba, entre outros especialistas em arte latino-americana, para citar os mais destacados, encontram e pesquisam a raiz construtiva de nossa arte no que denominam “geometria sensível” a partir de nossa base cultural indígena. Ao vermos a arte Guarani compreendemos isto, ao entrarmos em Cuzco, nas ruínas de Macho Pichu, Tiahuanaco, Teotihuacán, Copam, Chichen Itza, Pedra do Ingá, por exemplo, percebemos o quanto foi civilizatoriamente culta e forte a construção das cidades a partir da compreensão do número harmônico, das proporções áureas, do norteamento das ruas e casas, das relações naturais das cidades, com a chuva, o vento e o sol e o solo fértil. Na pintura de Torres Garcia vemos traços dessa ordem cósmica andina, nos artistas geométricos latino-americanos encontramos os traços dessa “geometria sensível”, assim como não seria o também e escultura africana, em especial o entalhe das máscaras ritualísticas, uma das bases fundamentais do cubismo de Picasso, que influenciou definitivamente a estética moderna?
 
A pintura corporal dos índios da América do Sul, com ênfase nos brasileiros,
é também, além de uma expressão performática, um monumental registro de
expressão geométrica. Os Kadiwéus, Caiapós, Ianomanis, Carajás, Botocudos, Bororos,
Krenakarores, Tchacurramães e Ricbactivas, entre tantos, são donos de expressões
corporais que se manifestam através da pintura e da arte plumária, de um nível
estético e simbólico que transcende a muitos dos sentidos da arte européia.
 
Quando nos referimos à arte construtiva não estamos nos limitamos à questão
formal, mas ao sentido lato da palavra construção. Não queremos dizer apenas
geometria, mesmo que sensível, mas queremos falar de uma harmonia significativa,
algo que ordena o olhar para a construção de coisas, objetos, cidades,
propósitos, sociedades. Queremos nos opor ao caos. Pensamos que na história da
arte tivemos sempre correntes construtivas e correntes caóticas, em constante
oposição, dentro da evolução das sociedades, e verificamos que os artistas
acompanham estas correntes porque estão sempre ligados aos acontecimentos dos
seus tempos. Mas há tempos de guerra e tempos de paz...
 
Não seria, portanto, a arte dos negros, com sua ancestralidade profunda, mística a mágica, também testemunha de uma “geometria sensível”? De resto, não seria a geometria a marca real do design do Universo?
 
Portanto, para falar de arte construtiva não posso evocar apenas o suprematismo de
Malevitch, a vanguarda russa, o neoplasticismo de Mondrian, o cubismo de Picasso ou o concretismo brasileiro de Sacilotto, Lígia Clarck, Oiticica, Ligia Pape e Da Costa.  É preciso evocar a arte dos índios americanos e dos povos africanos, nas mãos dos quais está também o substrato da construção de cidades e de sociedades, a sensibilidade dos xamãs de todos os cantos da Terra, donos de um saber geomântico particular e poderoso e de um domínio sem par do conhecimento do solo e dos quadrantes da terra. 
 
É também preciso evocar ainda artistas contemporâneos que trabalham com a terra, a natureza, a condição humana em relação ao planeta que nos abriga. Evocar artistas como Richard Long, Beuys e Kraschberg, por exemplo, mas também artistas da paisagem real, da natureza vegetal urbana, como Burle Max e Pradial Gutierrez.
 
Sobre o paisagista argentino Pradial Gutierrez gostaria de dizer que sinto por ele uma grande admiração pela maneira como faz a integração da arte com a paisagem, pelos exemplares projetos que envolvem as esculturas aplicadas na cidade de Resistência, e pelo que ele me informou sobre o Parque das Esculturas Sonoras da Patagônia. Trata-se de um trabalho coletivo do qual o mestre Pradial é o organizador dos seus espaços, mas também o elaborador dos seus conceitos. Sei, e isto me deixa ainda mais admirado, da
atuação que a da Fundação Urunday tem nestes trabalhos, e de seus integrantes, que conseguem proporcionar à população da cidade este fato novo na cultura americana que é esta Bienal Del Chaco.
 
Costumo dizer que “o Brasil é lá dentro”, como se diz na minha terra, “nas brenhas”, “nos breus”. O Brasil não está apenas nas cidades litorâneas olhando o mar nostalgicamente. Depois que comecei a conhecer outros países americanos passei a dizer que a “América Latina também é lá dentro”: no Pantanal, nos Andes, no Chaco, nos Pampas, na Floresta Amazônica, além das lindas praias da minha terra. Por isto não posso falar de pobreza, mas de riquezas ocultas, de tesouros que existem como cavernas cheias de ouro, encravadas nas montanhas, levando em conta que o coração é a caverna do corpo assim como a caverna é o coração da montanha. 
 
Dou-me conta de que num passe de mágica poderemos ligar todos estes pontos: as raízes de nossa arte, as histórias de nossos povos, os lances criativos de nossos artistas, a aberturas das cavernas de nossos corações. Este passe de mágica está em nossa vontade de quebrar as fronteiras de nossos países, para depois quebrá-la entre nós mesmos. 
 
O que precisamos é nos integrar, intercambiar nossas criações, criar circuitos entre nós fora dos circuitos exploradores do marketing artístico americano do Norte ou europeu. Não nos basta circuitos como Buenos Aires/Paris/Nova Iorque, São Paulo/Kassel ou
Caracas/Londres. Queremos Paraíba/Chaco, Bahia/Corrientes, Campina
Grande/Montevideo, Recife/Santiago do Chile. Precisamos nos conhecer, nos tocar,
nos desculpar por nossa falta de atenção. Nem sempre o tronco principal do nosso
sistema circulatório vai bem, para tanto se podem implantar, pontes de safena, para criar uma circulação colateral e salvar as nossas vidas.
 
Há algum tempo, visitando Assunção eu vi no Museo del Barro obras de artistas que representavam não apenas o Paraguai, mas toda a América Latina, como o argentino Berni, o peruano Zilizlo, o colombiano Abularach, o venezuelano Cruz Díez, além do brasileiro Lívio Abramo, entre tantos outros do México, da Venezuela, do Chile e do Panamá. Pensei que no Brasil, com todo seu território e seus museus importantes do Rio, São Paulo, Salvador, Recife, Curitiba e Porto Alegre, pouco se vê e se conhece destes e de outros importantes artistas da América de fala espanhola. Pouco sabemos da arte da América do Sul. As poucas obras de Torres Garcia, Matta, ou Soto que lá se encontram estão mais em coleções particulares do que em nossos museus, as obras de artistas
contemporâneos como as do grupo argentino CAIC, nos chegaram através da Bienal de São Paulo, uma mostra que, embora importante na sua estratégia, é eventual, não proporcionando o enriquecimento do acervo nacional. (Devo registrar, porém, que num pequeno museu na cidade de Campina Grande, onde nasci, há obras de dois
ilustres artistas argentinos: Berni e Segui.) Foi, portanto, exatamente no Paraguai, país que o Brasil fez mais pobre através de uma absurda guerra que atendeu aos desejos imperialistas ingleses, foi justamente ali que aprendi a melhor lição sobre unidade latino-americana, naquele pequeno e belo Museo Del Barro dirigido na época pelo escritor e crítico de arte Tício Escobar e pelo artista gravador Oswaldo Salerno.
 
Há quase trinta anos assisti no México a um congresso mundial de artesanato
promovido pela uma ONG Conselho Mundial de Artesanato e patrocinado pelo governo
mexicano e produzido pelo Fundo Nacional para o Desenvolvimento do Artesanato, dirigido pelo intelectual Thonatihu Gutierrez. Na abertura o presidente Luiz Echeverría disse mais ou menos o seguinte: “O México tem três mil quilômetros de fronteira com os Estados Unidos, seria ridículo pensar que nossas heróicas, mas pequenas, forças armadas teriam capacidade de defender todo nosso país. O que defende o México é nossa cultura autêntica, a cultura de nosso povo”.
 
Somos nós, e seremos sempre nós, os artistas, os grandes cronistas da humanidade. Somos os que registram com a cabeça e interpretamos com o coração. Somos os Anjos anunciadores de novos tempos, de coisas práticas, e novas ideias. Mas somos também os Anjos Exterminadores, aqueles que anunciam as guerras, as fomes, as pestes e as mortes.
 
Os muralistas mexicanos contam ao mundo como foi a revolução de lá, o também muralista brasileiro Cândido Portinari mostrou no seu duplo mural da ONU a guerra e a paz, o brasileiro Abraham Palatinick, o argentino Júlio Le Parc e o venezuelano Jesus Soto transcenderam à pintura e a escultura com a arte cinética, o argentino Julio Plaza
modificou o olhar dos jovens artistas brasileiros na década de 70.
 
Artistas latino-americanos estão hoje aqui, nesta cidade encantada de Resistência, dádiva do Rio Paraná, do Paranazão como dizemos no Brasil, rio de unidade e de integração, e em tantas outras cidades da latino américa, modificando a história, acrescentando algo mais ao cotidiano dos homens e agindo como testemunhos de seu tempo.

 

 Resistencia, cidade das esculturas

 

O Rio Paraná é a grande artéria que integra Brasil, Paraguai e Argentina num complexo cultural que tem como base o povo Guarani. O Paranazão serpenteia e vibra com sua força telúrica entre terras baixas, charcos inundados por águas repletas de vida, luz e calor. Entrando na Argentina, há seiscentos quilômetros de Foz do Iguaçu, capital natural da Tríplice Fronteira, em pleno Nordeste do país vizinho, estão duas cidades símbolos de nossa cultura atual: na margem esquerda Corrientes, e na direita, dez quilômetro adentro, Resistencia. Corrientes, de quatrocentos anos, debruça-se sobre o trecho mais largo do rio onde existe uma ponte de mais de mil metros em direção a Resistencia. Corrientes é a capital da Província do mesmo nome. Já Resistência, com pouco mais de cem anos, é a capital da Província Del Chaco. Para o viajante desavisado é surpreendente a vida cultural dessa região, especialmente a força das artes plásticas. Corrientes comporta artistas dedicados ao muralismo que trabalham com a técnica aqui chamada de “grafite”, que temos em Aloísio Magalhães um de seus precursores no Brasil, técnica que consiste na colocação de camadas de reboco colorido, sendo cada camada recortada deixando aparecer a camada de baixo de cor diferente, resultando numa pintura em vários níveis com cada cor localizada no seu nível. Na beira do Rio Paraná há um parque de murais de vários artistas locais e alguns brasileiros da tríplice fronteira.

 

Em Resistência, motivo principal deste comentário, a escultura ocupa uma importância e um espaço inédito em cidades da América do Sul. Na verdade, em termos relativos, não conheço cidade no mundo que comporte um tão grande acervo de esculturas em locais públicos. Resistência é a cidade das esculturas.

 

Essa história é recente, é pós-moderna, começou em 1961, quando os irmãos Aldo e Efrain Boglietti, empresários de turismo que representavam em Resistência a Aerolineas Argentinas, que eram também intelectuais envolvidos com a vanguarda da época, passaram a reunir em sua casa – hoje patrimônio da cidade, projetada pelo arquiteto Horácio Masqueroni, um dos símbolos da modernidade Argentina – pessoas ligadas à arte e à literatura. Colecionadores de artes plásticas, eles pensavam a cidade como um museu a céu aberto. A partir disso Resistência tornou se tornou num grande acervo de esculturas ao ar livre.

 

O grupo de intelectuais chamava-se Fogón de los Arrieros, ou melhor, a cozinha (o fogão) dos tropeiros que transitavam pelo Chaco (que se tornou província em 1951). A ideia deste acervo ao ar livre foi concebida em 1961 como “Plano de Embelezamento de Resistência”. Em pouco tempo obras do grande artista argentino Lucio Fontana (um interessantíssimo bronze figurativo do início de sua carreira), Gerstein, Labourdete, Fioravanti, Petorutti e outros grandes nomes da escultura Argentina espalhavam-se pelas ruas e pelas praças. Foram pensadas formas de convivência com as obras de arte e a população foi consultada sobre diversas possibilidades de relacionamento com elas. As opiniões do povo formam como que um ideário para quem hoje trata da manutenção dessa ação cultural. Entre 1977 e 1991 o Fogón de los Arrieros passou a ter sua continuidade através da Comissão para a Promoção Artística de Resistência – COPROAR, ligada aos poderes municipais. Mas a partir de 91 entra na história a Fundação Urunday, grupo de escultores formado por Efrain Boglietti (falecido em 1991) Fabriciano Gomes, seu maior nome, maior incentivador e atual presidente, Mimo Eidmam, vice-presidenta, Ana Maria Taiana, Carlos Cuffia e Eugenio Milani. O curador para as obras escultóricas na paisagem é o arquiteto portenho Pradial Gutierrez. Há ainda uma ação educativa realizada por Mário Venegas e assessoria de divulgação a cargo de José Eidman e Diego Libedisnki.

 

Não que a cidade não tenha pintores gravadores, artistas conceituais e contemporâneos, ela os tem e eles são muito bons, da qualidade de Oscar Daniel Nielsen e Oswaldo Marcón. Mas existe alguma coisa além do simples gosto pelas artes plásticas, uma espécie de compromisso dos habitantes com as esculturas, um acordo tácito entre os poderes públicos e o povo que possibilitou este acervo que está por toda parte, nas ruas, em frente das casas, dentro das casas, nos edifícios habitacionais e públicos, nas lojas, em praças e parques, e em um belíssimo parque projetado por Pradial Gutierrez para acolhê-las ainda mais. São mais de trezentas obras aplicadas numa cidade que não deve exceder a duzentos mil habitantes. E este número cresce porque há uma política pública dedicada à aquisição e colocação das esculturas e uma tendência do empresariado local em apoiar cada vez mais esta atitude coletiva, característica tão especial desse povo.

 

Como base estratégica desta política, porém encaminhada pela iniciativa privada dos artistas da Fundação Urunday, existe uma Bienal Internacional de Esculturas, a Bienal del Chaco, um dos eventos responsáveis pela manutenção dessa chama que ilumina esse o olhar sobre a arte e as atitudes cidadãs que ela encerra. A Fundação Urunday, cujo nome vem de uma madeira na qual muitas esculturas da região são talhadas, para realizar a Bienal, reúne artistas convidados do mundo inteiro para trabalhar em praça púbica, aos olhos dos passantes, as obras que serão mostradas e premiadas por uma comissão, e posteriormente incorporadas ao patrimônio da cidade.

 

Na noite da premiação da 5a. Bienal, da qual fiz parte da Comissão de Premiação, o palanque montado na Plaza 25 de Mayo, a principal da cidade, onde funcionaram as oficinas ao ar livre e os escultores trabalharam às vistas do povo, estava cercado por mais de dez mil pessoas reunidas sob um frio de dez graus. O povo aplaudia em praça pública, numa noite de sábado seis escultores cujas obras viu serem criadas, e que fariam a partir dali parte da cidade. Havia música antes da recepção para entreter a massa, mas não uma música de massa, uma música local, linda, autêntica, do Chaco e dos Pampas. Os escultores, com seus jeitos de pessoas comuns eram aplaudidos com um entusiasmo que somente quem cultiva sua cultura sabe fazer.

 

Foi uma lição de cidadania para mim, que venho do Recife, cidade cheia de projetos e leis de incentivos à cultura, cuja Prefeitura mantém uma Lei de Obrigatoriedade de Inserção Obras de Arte nos edifícios com mais de mil metros quadrados de construção, mas onde o povo – mesmo os moradores dos edifícios – não participa da escolha dessas obras, ou como brasileiro oriundo de um país repleto de instituições públicas e privadas como a Fundação Bienal de São Paulo, Instituto Itaú, Centro Cultural Banco do Brasil, Casa França Brasil, etc. etc. etc., e tantos museus, e tantos outros programas e projetos. Verificamos que todas estas instituições, para funcionarem de acordo com o sistema implantado, público ou privado, estão voltadas para o marketing, não para a produção de linguagem, que proporciona a cultura, dirigidas apenas para a promoção de ídolos, para o estrelato, ou então para o assistencialismo culposo da cultura da pobreza que este mesmo sistema promoveu, sem contar com o “meio-de-campo”, a produção normal da arte que acontece em qualquer localidade, e principalmente sem se dirigir ao público geral, o cidadão de qualquer cidade, das capitais que estão fora do eixo Rio/São Paulo, o verdadeiro público que reside em qualquer recanto deste país que possui mais de cinco mil municípios onde floresce o espírito criativo de nosso povo – pois o Brasil é lá dentro – e onde as políticas públicas, se usadas adequadamente, poderiam cumprir seus verdadeiros papeis sociais mediando com o povo o saber de seus criadores.

 

 

 

 

 

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