Luzes de Holanda

O civilizador

A Companhia das Índias Ocidentais invadiu o Brasil entrando por Pernambuco. Conquistou a ilha do Recife onde montou sua base e iniciou um processo de colonização que, nos seus poucos anos de atuação, foi surpreendentemente bem sucedido. Invasora, conquistadora e colonizadora, porém, a Companhia trouxe para dirigi-la o Príncipe Maurício de Nassau, ao transcender os princípios pragmáticos e racionalistas comuns a qualquer organização burguesa, corrigindo o sentido meramente colonizador ao adicionar à campanha seu humanismo civilizador.

Nassau trouxe consigo cientistas, cronistas, historiadores e artistas plásticos, principalmente pintores, aqueles que plasmaram para sempre as visões do Recife no século XVII, sua luz, igual à que vemos hoje, suas paisagens, certamente modificadas com o passar do tempo e o avanço tecnológico e urbano, seus frutos e flora que ainda nos deliciam, sua arquitetura colonial, suas gentes, na época menos iguais do que somos hoje, miscigenados rumo a uma sonhada democracia racial. Aqueles pintores, desenhistas e cartógrafos eram, sobretudo, artistas diversificados entre si, donos de estilos próprios e visões diferentes do mundo, como acontece na abordagem artística que, ao contrário da científica, leva em conta a poética visual, sensível e subjetiva, embora eles fossem colaboradores exímios e indispensáveis da ciência e da tecnologia da época. Aqueles pintores, mesmo estando cumprindo algum tipo de contrato que os obrigava a pintar a terra conquistada para conhecimento e glória dos burgueses de Amsterdã, estavam também fazendo arte, mas uma arte civil, despida das amarras católicas portuguesas que limitava seus artistas aos temas religiosos e aos ambientes clericais, uma arte que prenunciava a modernidade ao retratar o novo mundo com as visões do novo paraíso. Uma arte que, embora colonizadora na sua intenção, foi libertária do ponto de vista da própria pintura, pois incorporou ao seu acervo imaginário a expansão europeia, a geografia, a aventura o desconhecido, o exótico, fato que somente veio a ocorrer de novo no século XIX. Mas este ponto será comentado adiante.

Os artistas eram Frans Post, Albert Eckhout, George Macgrave, Zacharias Wagener e William Piso, trazidos por Nassau por conta própria para realizarem o registro gráfico e pictórico do novo mundo que florescia no nordeste brasileiro de forma estratégica, despertando a burguesia europeia para as possibilidades econômicas e a riqueza territorial que se vislumbravam.

Não eram os mais importantes artistas holandeses da época, como Frans Hals, Rembrandt Vermeer e Rubens, estes muitos bem estabelecidos pintando a burguesia de Amsterdã, longe da aventurosa jornada dos pintores de Nassau. Mas eram jovens artistas de grande competência, que empenharam suas vidas em função de um trabalho desbravador, chegando mesmo a ter suas carreiras ameaçadas, como aconteceu com Eckhout, que teve seus quadros pintados no Brasil, certamente o melhor de sua obra, integrados ao acervo do Museu de Antropologia de Copenhagen, fora, portanto, do circuito das artes.


A recorrência das Batalhas

As batalhas dos Guararapes, acontecidas em 1644 (Batalha de Tabocas), 1645 e 1648 (as duas dos Montes Guararapes) são tema recorrente na arte brasileira. Em 1709, a mando da Câmara do Senado de Olinda foram pintados três painéis para a decoração do Paço Municipal, estas obras, cujo nome do pintor foi esquecido, estão hoje sob a guarda da pinacoteca do Museu do Estado de Pernambuco. Em 1781 o Governador José César de Meneses mandou pintar a primeira Batalha dos Guararapes na Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares, no forro abaixo do coro, logo na entrada da Igreja, na Rua Nova. O tema volta em 1801, quando Frei Luís da Assunção, Dom Abade e Reverendo Padre Mestre, administrador da Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres dos Montes Guararapes, mandou pintar dois painéis sobre as batalhas onde se destaca a crença da intersecção da Virgem nas vitórias dos luso-brasileiros. Estes painéis encontram-se hoje guardados no Museu do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, depois de terem sido queimados por um raio no século XIX.

O mestre e arquiteto José Luiz Mota Menezes, no texto do catálogo da exposição ”Batalha dos Guararapes: Um Olhar Contemporâneo”, realizada pelo Museu do Estado de Pernambuco em 1994, com curadoria da marchande Vera Magalhães, refere-se ao pintor acadêmico Victor Meireles como “autor de uma notável representação da batalha”. O pintor, que restaurou os quadros do Senado da Câmara de Olinda a mando do governo imperial em meados do século XIX, assim as critica: “De nenhum merecimento artístico são aquelas pinturas; entretanto, se atendermos à sua antiguidade, que se lê da respectiva explicação com a data de 1709, e aos costumes ali pintados, que me parecem ser reproduzidos com alguma fidelidade, tornam-se por isso não só dignos de apreço, como também de utilidade para o trabalho que me acho comissionado pelo governo imperial”. Vê-se com este comentário que os artistas acadêmicos, principalmente no Brasil, estavam longe de apreciar a pintura ingênua que começava a despontar em Paris com a obra de Henry Rousseau, o aduaneiro. Na verdade o academismo de onde provinha Victor Meireles continha os mesmos dogmas dos artistas de Nassau, embora já se encontrasse em processo de exaustão com o advento da arte moderna que na Europa gerava suas primeiras luzes com o impressionismo. Fato é que, para o olhar atual, as visões do paraíso brasileiro pintadas por Eckhout duzentos anos antes de Victor Meireles emitir tais julgamentos e pintar sua Batalha acadêmica, são muito mais modernas. Embora em outro contexto, menos antropológico e mais poético, as visões do Taiti pintadas por Gauguin, do Marrocos por Matisse, as máscaras africanas presentes no cubismo de Picasso e nas esculturas de Modigliani, entre outros exemplos, são como que as versões “modernas” e atuais da atitude artística de Eckhout ao incorporar às artes plásticas a aventura do novo mundo: a aventura de pintar no Brasil. E hoje se diz cada vez mais que arte é atitude. Voltaremos a tocar no assunto.


Olhar contemporâneo (olhar moderno)

Voltemos, portanto, à exposição “Batalha dos Guararapes: um olhar contemporâneo”. Podemos avaliar o quanto nossos artistas se interessam pelo assunto. Assim se compôs a mostra:

Francisco Brennand apresentou macro fotografias do mural, “Batalha dos Guararapes”. Brennand declara no catálogo: “De todos os meus trabalhos realizados, quer seja de pintura a óleo ou de cerâmica, o mural Batalha dos Guararapes seria aquele que eu gostaria que perdurasse” ”Neste mural fiz questão – e este é o ponto central da motivação – de colocar nas mãos de um caboclo a futura bandeira da República”.

João Câmara expôs uma pintura intitulada “Persistência de Guararapes” onde se vê políticos e militares brasileiros reunidos, pousando sob uma cena da Batalha dos Guararapes, de pintada em preto e branco, obra que parece descendente da sua série de gravuras “Cenas da Vida Brasileira”, núcleo do acervo da então Galeria Aloisio Magalhães, hoje Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães - MAMAM.

Reynaldo Fonseca mostrou um retrato de Fernandes Vieira pintado com sua técnica especialíssima, que desenvolveu a partir do conhecimento da pintura flamenga e as técnicas de espessar o óleo de linhaça para atingir uma viscosidade transparente, quase cristalina. Obra de mestre.

Ismael Caldas apresentou a pintura “Batalha”, cenas dramáticas de corpos despedaçados magnificamente pintados. Ismael posiciona-se numa atitude crítica declarando no catálogo da mostra: ”Acredito que é um anacronismo ridículo defender ”grandes cenas” ou “momentos heroicos” quando, na verdade, trata-se do sacrifício inútil ou da imolação, onde a face humana mostra o patético, o ridículo e o terrível, reunidos numa soberba demonstração de estupidez.”

Tereza Costa Rego, grande pintora de tendência muralística como Brennand, Câmara e Lula Cardoso Ayres, também adota os temas históricos pernambucanos – eis que ela é formada em história – e apresentou uma cena da Batalha que se passam na copa de uma árvore cercada de cidadãos, e a frase de Thomas Jefferson: “A árvore da liberdade deve ser regada de tempos em tempos com o sangue dos patriotas e tiranos”. No catálogo ela declara, referindo-se às pinturas luso-brasileiras sobre a Batalha: ”Os painéis votivos da Batalha dos Guararapes rondam a minha memória desde criança como as combinações de um caleidoscópio”. Dentro do imaginário holandês no Brasil, porém, uma das obras mais importantes é o quadro “O Boi Voador” pintado por Tereza Costa Rego em 1992. Trata-se de importante momento de nossa arte, que nos diz que o olhar no passado cultivado por estes artistas não se detém na guerra, mas também na festa, no humor, na ilusão de um boi que voa para encantar nossas almas perdidas.

José Cláudio participou com uma pintura intitulada “Fragmentos do Painel da Conceição dos Militares”, diz: “Nunca me imaginei no meio de uma batalha (nem Napoleão sabia o que estava acontecendo nas dele, diz-se). Tentei trazer ao meu mundo ”real” uma ou outra cena isolada, do painel da Conceição dos Militares. José Cláudio foi, talvez, o artista que mais se reportou aos holandeses no Brasil, não ao domínio ou às batalhas, mas às “atitudes” dos artistas de Nassau.

A obra com a qual Montez Magno participou, intitulada “Batalha”, é uma bela composição geométrica sugerindo uma sequência de chapéus e lanças dos guerreiros dos Guararapes. Ele coloca sua condição de artistas construtivo, distinto da maioria dos que participaram da mostra: “Fiquei encantado com a proposta/convite da Fundarpe para realizar uma obra tendo como tema a representação da Batalha dos Guararapes, isto porque vez por outra costumo visitar o passado com o olhar individual da minha época”.

José de Moura, pintor de forte influência da arte acadêmica, expôs a pintura “Batalha dos Guararapes”, composição onde estão poeticamente flutuando, numa atmosfera de liberdade histórica e geográfica, alvos, espadas, dois soldados em luta, rodas de carroças e a Igreja do Carmo de Olinda.

Gil Vicente apresentou o quadro “Soldado holandês morto”, dramático retrato da guerra magnificamente pintado a óleo, representando o tronco e o capacete do soldado caído no chão. No seu depoimento, no catálogo, diz: ”Descartada a primeira ideia, (uma composição com armas e roupas da batalha) e depois de visitar o Monte dos Guararapes, a imagem de um solado morto se apresentou como mais ilustrativa e envolvente. Com o holandês em proporção ampliada, uma reportagem feita no local, na tentativa de aproximar o expectador do combate”.

O pintor Delano veio com outra imagem de intensa dramaticidade: “Cão de guerra, o outro dia”. Um grande cão negro sobre a paisagem insólita do campo de batalha, a rapinagem, o reconhecimento do terreno, a avaliação das perdas e danos através da figura simbólica do animal meio doméstico, meio feroz, que acompanha os guerreiros, as caravanas e as batalhas como protetor e como rapinante.

Rinaldo, artista de linguagem mais atual, mais jovem e mais livre nas abordagens do tema, expôs uma pintura intitulada “Anjos dos Guararapes, não precisam mais batalhar”. Ele diz no seu depoimento: “Procuro na minha pintura, o encontro entre a racionalidade e o impulso visionário. O tema não deve limitar a criação; é a consciência deste espaço restrito, um insulto ao pensamento e ao sofrimento de expressão. Quando tive a batalha dos Guararapes como mote para a pintura, cascavilhei a história e a guerra, os homens, o espaço, as coisas e o drama. Aticei-me esboçando igrejas, canhões, cornetas, espadas, lanças e bandeiras, mas ainda me encontrava no presente, e a batalha no passado. Fiz uma pintura ausente e redundante; amadurecem por dentro do ofício das tintas uma aproximação das variáveis do tempo, apenas no presente lúdico, sonhador e fantástico, a batalha não deve ser travada, o sangue não deve ser derramado. Para que morrer por causas insanas? Os Anjos dos Guararapes não devem mais batalhar”.

Finalmente a instalação de Romero Andrade Lima intitulada “Aparição de Nossa Senhora dos Prazeres no campo de batalha dos Guararapes”, composição sobre círculo de areia, onde são aplicados em torno de um rosto de Santa, tufos longos de cabelos, fitas de papel, cacos de cerâmica, ossos, ferraduras, coisas que poderiam ficar na terra após uma batalha. Romero diz no seu depoimento: “Guardo duas imagens da Batalha dos Guararapes. Uma, são os três painéis que estão no Museu do Estado: ex-votos agradecendo a aparição de Nossa senhora dos Prazeres como remédio para a guerra; a outra são todos os cacos de cerâmica, ferro e ossos que eu vi no laboratório de arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco, onde estudei. Não decidido entre as duas, preferi junta-las. Os cacos são o tempo da Batalha, que eu recolhi pelos sítios a céu aberto que existem em Recife e Jaboatão. E a Nossa senhora é a lembrança dos rostos das Santas de altar da infância.”



Luzes de Holanda

Retomando a expressão “arte é atitude” verificamos que a influência do Brasil Holandês no Pernambuco moderno não se limita à pintura das batalhas ou do Boi Voador, embora sejam temas visitados por pintores como George Barbosa, que realizou recentemente no Palácio das Princesas – Palácio do Governo do Estado – uma exposição cujo tema foi o Brasil Holandês, com curadoria de Silvia Robalinho, onde o pintor relê obras de outros artistas autores de retratos de Nassau, esboça visões das batalhas e do passado da região com compromisso com a verdade histórica. Além dessa pintura temática ainda praticada por George Barbosa, outros artistas, influenciados ou não pela pintura flamenga, agem e pintam de forma semelhante.

O pintor e desenhista Manoel Bandeira (1900-1964) mais conhecido pelos desenhos, vinhetas e ilustrações da imprensa e da literatura pernambucana na primeira metade do século XX, passa em suas pinturas – as mais conhecidas do público são as três telas de pequeno formato pertencentes ao acervo do Museu do Homem do Nordeste da Fundação Joaquim Nabuco, “Velhos Sobrados” (s/data), “Cais do Apolo” (1925) e “Engenho Bom Retiro” (1945) – certo silêncio acentuado pela palheta suave, pela luz filtrada, pelas figuras humanas distribuídas na tela numa escala que fazem delas elementos da paisagem, como se pode ver em algumas pinturas de Post, como “Cachoeira na Floresta” onde as sobras nas árvores, as figuras humanas e a pintura do rio encachoeirado parecem como que imóveis, “congelados” pela atmosfera suave, ou “Engenho”, e os elementos arquitetônicos são praticamente os mesmos de “Engenho Bom Retiro”, de Bandeira (os quadros de Post que nos referimos aqui pertencem ao acervo do Instituto Ricardo Brennand). Esta maneira de pintar expressando o silêncio também se vê, sobretudo na arte de Reynaldo Fonseca, retratos carregados de um ar denso, de uma translucidez cromática presente também na pintura de Veermer, mas que pode ser visto também na arte do americano Edward Hopper e do belga Balthus.

As questões que envolvem a paisagem como temas da arte são importantes nessa relação que criamos. Foi com um conjunto de paisagens desenhadas em pedras litográficas, ao “estilo” de Frans Post, que o artista plástico e designer Aloisio Magalhães, na época Secretário Nacional de Patrimônio Cultural, propuseram numa reunião da UNESCO em Veneza, o título de Patrimônio Cultural, Histórico e Natural da Humanidade à cidade de Olinda. As paisagens litografadas por Aloísio e vistas de vários ângulos externos e internos, foram visivelmente inspiradas nos desenhos que Post fez das principais localidades do Brasil Holandês, que se tornaram gravuras através dos artífices liderados pelo mestre Brosterhuisen e integram o livro de Gaspar Barléu. O livro apresenta 18 gravuras retratando o Recife (Cidade Maurícia, Forte Príncipe Guilherme, Palácio Friburgo e Palácio Boa Vista) e Olinda, além de Porto Calvo, Igaraçu, Vila Formosa de Sirinhaém, Povoação de Alagoas do Sul (Marechal Deodoro), Maurício (Penedo, às margens do Rio São Francisco), Fortes Orange e Cidadela Sckoppe em Itamaracá, Fortim de São Sebastião (Ceará), Frederica (João Pessoa), Forte Margarida (Fortaleza de Santa Catarina do Cabedelo, Paraíba), Forte dos Reis Magos (Natal), São Luís do Maranhão, e Cabo de Santo Agostinho.

A paisagem nordestina é característica com suas vistas marítimas, panoramas agrestes e aspectos urbanos. A pintura de paisagem não se desenvolveu muito aqui como aconteceu no sul e sudeste no período acadêmico, embora tivéssemos tido alguns grandes paisagistas como, na passagem do século XIX para o XX, Teles Junior que, segundo opinião de Brennand, foi quem melhor interpretou a luz do Recife e seus arredores, e na primeira metade do século XX Mário Nunes, Elezier Xavier e Rubens Sacramento. Mas foi mesmo na segunda metade do século XX que o gênero se firmou entre os pintores de Olinda, alguns ligados ao Ateliê Coletivo olindense, coordenado por Giuseppe Baccaro, como: o próprio Baccaro e seu filho Matheus, José Cláudio, Guita Charifker, Luciano Pinheiro, Eduardo Araújo, Marcelo Peregrino, pintando paisagens em jornadas ao ar livre pelas praias e canaviais da região. Além destes, Tiago Amorim, vendo o Recife de Olinda, Marcos Amorim, Zé Som Álvaro Caldas e Petrônio Cunha, desenhando e pintando Olinda vista de Olinda. Todos desenvolveram uma paisagem energética, colorística e tropical na sua força expressiva, mas também paisagens que documentam o panorama denunciam as intervenções humanas e resgatam valores da pintura. Paisagens diferentes, porém, das pintadas por Post no silêncio dos grandes vazios do século XVII, com cores sutis e texturas lisas. Nossas paisagens modernas são pintadas com cores explosivas, sobretudo pintadas livremente, sem o estigma do patronato da Companhia das Índias Ocidentais, paisagens pintadas por amor à pintura.

Nos anos 80 o artista Montez Magno pintou uma série de naturezas mortas inspiradas em Eckhout, ao ar livre, com o céu recifense como fundo. José Barbosa repetiu o mesmo feito neste ano de 2003. A obra de Eckhout tem sido paradigma para vários artistas. Os paraísos ultramarinos pintados por ele através dos registros das raças e dos tipos humanos repletos de frutos e flores, com pedaços de paisagens completando o panorama, são fonte permanente para artistas que criam dentro da estética do fantástico, como José Barbosa, que extrapola a paisagem penetrando numa poética onírico/tropical plena de sensualidade, ou ainda José Cláudio e Guita Charifker e o pintor neorrealista holandês Roberto Ploeg, que atualmente reside em Olinda ocupado em fazer releituras da obra Eckhout.


Wagener, Marcgraf, Piso, José Cláudio e Guitas Charifker

Em 1975 José Cláudio participou de uma expedição na Amazônia convidado pelo cientista e musicista Paulo Vanzolini. Compondo, ao lado de Vanzolini a tripulação dos barcos Garbe e Lindolfo, juntamente com os cientistas americanos Ronald Heyer, Diretor do Museu de Zoologia de Washington, e sua mulher Mirian, especialistas em mosquitos e rãs, e a cientista paulista Francisca Carolina Duval, também pintora. A excursão percorreu o Rio Madeira e afluentes como o os rios Machados e Aripuanã. Além de desenhar sapos, rãs, aves e outros temas selvagens de forma científica, José Cláudio pintou mais de cem telas que foram adquiridas posteriormente pelo governador do Estado de São Paulo, Dr. Paulo Egídio, e permanecem até hoje nas paredes do Palácio dos Bandeirantes. Foi uma experiência semelhante ao que fizeram Wagener, Marcgraf e Piso no Brasil holandês, quando desenharam a fauna e a flora dos seus domínios. “Aquela expedição mudou minha vida”, diz José Cláudio, “pintei uma arara sendo flechada por um índio, a pedido de um policial que vivia numa cidade ribeirinha, e vi a alegria dele quando lhe dei o quadro”. O policial retribuiu o quadro com um belo e novo revolver importando, ainda dentro da caixa, que o nosso pintor recusou, pois, naqueles anos, estava em curso a guerrilha do Araguaia, e o exército desconfiava de tudo e de todos, incomodando sempre a expedição à procura de armas. “Mudou minha vida porque eu senti como foi importante pintar o que as pessoas desejam, e não impor minha pintura. Faço assim desde 1975, peço mesmo que minhas marchandes Vera Magalhães e Madeline perguntem aos clientes o que eles querem que eu pinte”.

José Cláudio recria a maneira de trabalhar dos pintores de Nassau quando pinta o mundo objetivo, documenta a natureza e assume a atitude profissional que eles assumiam quando pintavam o que lhes pediam. Mas não são apenas essas coincidências que ligam a obra de José Cláudio aos holandeses. A pintura de Eckhout “Dança dos Tairariú” possui uma composição semelhante a muitas pintadas sobre o carnaval e multidões das últimas fases do pintor recifense. Certamente não se trata de influência, mas uma mesma pulsão que o leva a pintar temas como as posturas das danças e as coreografias do carnaval e do povo caminhando nas ruas. Pode-se ver também nas pinturas de Bajado algo semelhante, principalmente nos quadros de carnaval, e não se pode dizer que Bajado teve influências de Eckhout.

Outra obra de Eckhout cujo tema e composição sugere recorrência na arte atual é a pintura “Índia Tairariú”, antropófaga, segurando um braço humano e carregando um cesto onde estão pedaços de um corpo humano esquartejado do qual aparece uma perna, tudo isto numa paisagem com um cachorro, frutos e vagens que pendem de uma árvore frondosa. Tudo fazendo parte de um imaginário paradisíaco, Visões do Paraíso que, segundo Sérgio Buarque em sua famosa tese, era um dos principais motivos que fizeram homens como Nassau e seu séquito assumirem a aventura brasileira. Muito que bem, nossos artistas nunca perderam de vista estas visões, como Guita Charifker, principalmente em suas primeiras fases de desenhos onde revelava este imaginário zoo-antropomorfo, as composições florais e as paisagens vistas das casas para os quintais. Notável também, em Guita, é a proximidade com o trabalho de Wagener e Marcgraf, na sua dedicação de registrar magistralmente nosso mundo vegetal.

Como não sentir a atmosfera que fez Eckhout pintar “Índia Tairariú” nas figuras deformadas ou amputadas pintadas por João Câmara? Ou ainda as Visões do Paraíso na pintura de Maria Carmem e sua filha Vera, nos entalhes de Tiago Amorim, nos desenhos de Gim, nas paisagens abstratas de Luciano Pinheiro e, principalmente, em toda obra de José Barbosa?

Outra face curiosa e especial dessa ligação com os temas do Brasil Holandês reside nos mapas pintados por Tânia Carneiro Leão. Não são mapas cartográficos, são pinturas cujos temas são mapas certamente inspiradas em Vingboons, Claes Visscher, Hessel Gerritz, Marcgraf e outros cartógrafos que desenharam o Brasil Holandês, objetos onde a pintora procura expressar a atmosfera de antigos pergaminhos, memórias oníricas de caminhos e lugares, numa curiosa poética com o olhar no passado.

Uma arte do presente com o olhar no passado, eis o sentido da obra dos artistas que nos inspiraram estes comentários, e de outros que eventualmente criam séries de trabalhos referentes ao período holandês, como Sérgio Lemos, com o tema de frutas da região, ou Ana Veloso, retratando os índios de Pernambuco, por exemplo. Todos mostram como ainda é forte a presença de Nassau e de seus pintores no imaginário pernambucano, e como ainda encantam as visões do passado pintadas por eles e suas atitudes heroicas e aventureiras.

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