Eterno agora

Louras, esbeltas, de mãos dadas, passeavam suas vaginas bulindo como moluscos presos sob a grade dos zipers dos jeans, no eterno agora do shopping center. Sentado no meu “pé de escada” tomava chope com pizza. Vinham grávidas, muitas grávidas. Observei que era novembro e o carnaval tinha caído em março, esta era mais uma safra que amadurecia. Ao meu lado dois homens sóbrios e de fala espanhola – baixa, mas audível – em torno de suas latas de coca, trocavam Euros paraguaios. Um homem muito gordo quase não passou pela porta do banco, outro de cadeiras de rodas encostou-se a uma mesa ao lado e pediu um chope, pensei se eu estava também tão gordo como ele, mas não tinha a quem perguntar. Uma mulher bonita limpava o chão com notável pudor e dignidade austera. Uma cega tateava sua bengala de dentro de sua noite perene. Tudo parecia um contínuo meio-dia, sem relógios, sem entradas ou saídas ostensivas, tudo mais ou menos limpo e brilhoso como se estivéssemos diante de uma tela de TV.

Por perder-me em divagações deixei meu chope esquentar. Ao colocar a tulipa nos lábios veio-me um buquê de grama velha, amassada e azeda. Fui até minha infância quando morei em frente do sítio de Seu Gerson e Dona Maria, que tinham uma baia onde burros e cavalos se espojavam, comiam, cagavam e mijavam. A mijada dos cavalos me levou ao chope mau tirado no balcão do “pé de escada”, daqui estive em segundos há cinqüenta anos atrás, naquele lugar chamado Cascata, periferia de Santo Aleixo, uma cidade fabril no sopé da Serra dos Órgãos, periferia de Magé, na Baixada Fluminense que fica na periferia do Rio de Janeiro, que por sua vez é periferia do mundo.

Assim tenho pensado no tempo, como um livro fechado onde o passado e o futuro se comprimem em caracteres, palavras, frases, idéias, memórias, folhas de papel e a capa, onde está nosso nome em letras garrafais. Somente o agora existe, o eterno agora, o ponto que encerra esta frase escrita por minha infernal máquina, já é passado, já se colocou como página deste livro constante que elaboramos eternamente até a morte, e que sobrevive nos outros e nos outros até seus toques se diluírem, suas sombras se apagarem, seus sons se calarem e cairmos no esquecimento.

Quem bebe sabe: nunca tomar o último copo. Esta é a estratégia para beber sempre, para continuar bebendo. Minha mãe dizia: “Comer pouco para comer sempre”. Assim os parcos dinheiros da família venciam as crises, nossa pouca manteiga chegava até o fim do mês. Grande estratégia...

Percebo, diante deste chope oxidado, sem colarinho nem bolhas de gás transitando pelo copo, que quem bebe de verdade engana a morte, e bebe para isto. Quem bebe mesmo vai mais longe, joga com a maldita, empurra sempre ela para a frente como fez o velho amigo Robério que, na hora de pular do décimo quarto andar de sua miserável quitinete em Copacabana, decidiu tomar a saideira, e ainda hoje conta como enganou a morte. É preciso ter sempre esta carta escondida na manga e usá-la no momento exato. Viva a saideira que nunca chega, que está sempre atrasada. Nunca pense em toma a última saideira, adie peremptoriamente o último copo, pois não se para o tempo, vive-se nele.

Por tudo isso este lugar sem dia e sem noite espelha tanto a nossa alma que queima sob o fogo do álcool e sofre com as miragens do passado.

Por exemplo: meu avô matou uma onça... Era uma lombo preto enorme, que tinha comido uns bezerros nas terras da família e de amigos, em Pesqueira e redondezas. Ele saiu cedo no seu cavalo, com provisões para dias de viagem e um cachorro que ganhara do seu amigo Pessoa de Queiroz, um cão europeu que diziam próprio para a caça, pois assim foi criado e treinado, mas que nunca tinha enfrentado caça grossa. Disseram que a onça tinha sido vista perto de uma loca, numas pedras onde sumiam as águas de uma pequena cascata, num lugar onde havia uma igreja consagrada a São Vicente Ferrer, hoje a cidade de Serra dos Ventos, no município de Belo Jardim. Vicente era seu nome, ele logo gostou da aventura e pediu a benção do Santo.

Lá foi ele numa manhã enevoada, no seu cavalo, com seu cão, suas provisões – farofa de bode, rapadura e água – seu 38 e sua carabina papo amarelo, das que foram usadas na guerra de Princesa, que ele ganhou também do amigo Pessoa, que ficou com algumas delas para si, pois era o grande fornecedor de armas e munições para o Capitão Zé Pereira. Saiu de Pesqueira em direção a Belo Jardim por onde ela tinha sido vista, pois a onça é bicho andejo, cobre geralmente um grande território.

Meu avô Vicente Trevas, médico da Cruz Vermelha, formado por correspondência por um curso francês conforme me informou muito tempo depois minha avó, Júlia. Costumava carregar no caminhão, misto de pronto-socorro ambulante que ostentava o emblema da Cruz Vermelha, e tinha passe livre por todo sertão pernambucano, armas e munições para Zé Pereira escondidas entre garrafas de água mineral que ele levava para a cidadela de Princesa. Abastecia as enfermarias de guerra e o arsenal da batalha. Mais de uma vez ele levou sua filha, minha mãe, ainda menina, na sua boleia, com isto ele ainda tirava mais a atenção das barricadas que, aliás, eram em maior quantidades do lado de Pernambuco do que da Paraíba. Ele ia por dentro, enviesado, passando por caminhos conhecidos e por truculentos, porém cúmplices sentinelas.

Seu maravilhoso caminhão, pois assim sempre o tive na mente enquanto criança e adolescente, era equipado também, além da carroceria para transportar água, de duas grandes caixas muito bem forradas de couro negro e ferragens cromadas. Elas de transformavam, dependendo da necessidade, em cama de hospital que ele utilizava para cirurgias e repouso do paciente, em mesa de parto, cadeira de dentista que servia também para cirurgias na cabeça e, porque não, em cadeira de barbeiro. Era um lindo sistema de tubos que saiam de placas de madeira e se conectavam através de ferragens. Vi uma funcionando ainda na casa de minha tia Semíramis, a quem ainda chamamos carinhosamente de tia Mise, quando eu tinha 15 anos e fui visitá-la em Belo Jardim.

Com certeza o movimento de trinta (odeio a idéia de chamá-lo de revolução, assim como a de 64, obra dos mesmos homens que em trinta eram tenentes) implantou no Nordeste alguns alicerces da modernidade. Alguns, aqueles que interessavam mais à hegemonia do sul sobre o norte. Mas algumas curiosidades aconteceram ali, e uma delas foi a Guerra de Princesa (pela minha simpatia com a honrosa atitude contra o Nego de João Pessoa, o qual para mim foi escrito errado na bandeira, acrescentaram um N, devia ser escrito Ego, chamo-a de Guerra, e não de batalha como a história insiste em intitular). Em Campina Grande (e só poderia ser mesmo em Campina Grande) alguns historiadores informam que na Guerra de Princesa aconteceu a primeira batalha aérea do mundo: um teço-teco paulistinha de dois lugares sobrevoou Princesa algumas vezes atirando sobre ela bananas de dinamite. Também em Campina foi construído um carro de guerra, uma espécie de tanque, blindando-se um jeep e adaptando-se nele uma metralhadora giratória no teto. Dizem que o jeep entrou algumas vezes na cidade e fez estragos.

O caminhão de meu avô não era blindado...

Seu amigo Domingos, quando soube que ele tinha saído atrás da onça ficou preocupado e disse: “Essa onça acaba mordendo o compadre Vicente”. Pegou a lazarina que usava para caçar Inhambu, única arma de fogo que possuía, e um facão rabo-de-galo muito amolado, e seguiu o rastro de vovô. Por onde passava perguntava por Doutor Vicente, e diziam: “Ele está é louco pra pegar a onça.” Por onde andava diziam que a onça já tinha passado fazendo estragos, e comentavam “Seu Vicente tem que ter cuidado, ela é enorme, e braba.”

Morrendo de saudade de Pesqueira, sua terra natal, onde estava sua gente, minha mãe se preparava para ter seu primeiro parto em Campina Grande, onde meu pai tinha um colégio. Ela foi incisiva com meu pai: “Não quero ter este menino aqui.” Ela sabia como meu avô era bom parteiro, já tinha visto sua perícia pelas andanças nos Sertões de Pernambuco. Além do mais Pesqueira era para ela uma terra encantada onde parte de sua vida se passou ao lado de suas irmãs e os dois irmãos Vicente, como o pai, e Edson. Entre a memória dos doces de goiaba e as rendas renascença, quando o fogo dos Funihôs e dos Xururús ardeu na sua alma, quando a memória ancestral da Vila de Cimbres e seu memorável Barão, ela decidiu ter Risoleta lá na sua terra. E foi de qualquer jeito: cavalo, trem ou caminhão, de Campina Grande para Pesqueira, cortando por dentro dos dois estados, no verão de 1937. Meu pai, marinheiro de primeira viagem, atolado em compromissos com o colégio, foi vencido pela força daquela mulher filha do Doutor Vicente. Desceu do pedestal por seu chapéu Prada cinzento e seu terno bem cortado para aquiescer por todos os mandos de Dona Bete.

Quinze dias antes de partir ela mandou uma carta que chegou antes da caçada. Ele disse a minha avó Júlia, que insistia – “Não vá!”:  “Chego antes, pra pegar esse menino...” E foi caçar a dita cuja como quem vai pra guerra ou quem leva no peito os berros reprimidos dos garrotes sacrificados pela fera, ou ainda quem não viu a justiça ser feita no episódio de Princesa, como ele gostaria de ter visto.

Meus pais se conheceram em Poção, depois se encontraram em Belo Jardim. Não sei bem o que aconteceu, mas minha mãe tirou a batina de meu pai, que era seminarista em Olinda, vindo de Pipirituba, brejo paraibano. Meu pai assessorava o Arcebispo Dom..............., e morava em Palácio, no Alto da Sé, onde hoje é o Museu de Arte Sacra. Dos irmãos foi o escolhido para ser padre, como era comum naquele tempo numa família de onze filhos. A paixão por minha mãe foi arrasadora, quebrou suas convicções religiosas, nas quais nunca acreditei muito, e seu status privilegiado de bom seminarista acolhido pelo Arcebispo de Olinda e Recife. Assim como ela desbatinou meu pai, ela conduziu nossa vida com força e coragem. Filha mais velha de uma família também grande, ela esteve sempre à frente de nossas vidas quando éramos crianças e adolescentes, com a autoridade que já adquirira na casa de seu pai. Campina Grande, na época a cidade do progresso nordestino, entreposto do algodão de toda a região, com sua feira prodigiosa e com as companhias Cleiton e Sambra que compravam toda a produção do “ouro branco”, Campina Grande foi o destino do jovem casal. Vrsado em francês e latim meu pai se empregou como professor do colégio Pio XI, depois passou a ser o secretário do colégio. Naquele momento ele se tornara sócio do Colégio Alfredo Dantas. Entre os negócios malfadados de meu pai e as aventuras de meu avô Risoleta achou de nascer.

No mesmo dia, ainda de tardinha, meu avô Chegou a Belo Jardim cavalgando seu cavalo que eras baxeirinho, mas firme e forte. Foi bater na casa do seu amigo Chico Moura, onde passou a noite. No outro dia cedinho tomou café com Seu Moura e saiu com destino à serra onde disseram ter visto a danada. Pouco tempo depois Domingos riscou na casa de Seu Moura: “Cadê Doutor Vicente?” “Já foi atrás da marvada”, disse ele, “aquele homem está enlouquecido, a bicha vai acabar com ele” .

Na subida da serra meu avô começou a achar rastros recentes. Foi indo acompanhado pelo cachorro que, nestas alturas, começava a apresentar um comportamento meio estranho, na visão de meu avô, que não acreditava muito na coragem e ferocidade dele. Alguém, já sabendo do que estava para acontecer – pois ali tudo se sabia e notícia corria mais que dez pernas, deu mais informações a mau avô. Havia gente espreitando a onça à espera dele. Ela estava numa loca meio funda para onde corria as águas do inverno frio daquele ano. Em torno, muitas juremas brancas floridas, muitas paquiviras e bananeiras, tudo úmido e sóbrio. A serra estava enevoada, isto era ruim, mas era cedo do dia, e meu avô estava louco pra encontrar a danada.

Foi depois de uma pequena subida que ele acho a tal da loca, e a bicha lá, acuada pois sabia que intrusos estavam por perto. Domingos estava há uns instantes de encontrá-lo, já o tinha visto, mas não quis chamar nem fazer barulho para não espantar a onça, naquele momento ele também queria fazer parte da caçada. Meu avô chegou a uma distância em que seria possível acertar a onça, mas o cachorro começou a ganir de medo e a danada se agitou lá am baixo, ele mirou o papo-amarelo e atirou, a bala pegou no lombo da bicha que saltou feito um cavalo, o cachorro ganiu alto, meu avô se assustou e escorregou numa pedra cheia de lodo e caiu na loca, seu papo-amarelo caiu longe. Nisso Domingos chega gritando; “Doutor Vicente, essa bicha vai lhe morder, cuidado, cyuidado...” E meu avô só tinha mesmo o 38 que tirou da cartucheira e atirou na onça. Perecia nada, o couro da Lombo Preto era muito duro. Domingos lá de cima mirou a lazarina e atirou, debalde, o chumbo se espalhou e até atingiu, já sem força, a perna de meu avô. A onça estava a uns cinco metros dele quando Domingos resolveu descer com o facão-rabo-de-galo, mais caiu e se machucou. Meu avô pegou o facão, não tinha mais jeito, a onça ferida com o tiro da carabina, mas ainda forte e ágil, partiu pra cima dele e comeu-lhe o dedão do pé antes dele corta-lhe a cabeça com alguns golpes do facão que Domingos mantinha sempre amolado. O corpo da onça ficou no chão decapitado, a cabeça rolou pelas pedras até o fundo da loca fazendo um rastrto de sangue por onde descia. Meu avô arfando, cansado, sangrando, ferido, sem o dedão do pé – ele usava alpercatas – mas com a cara iluminada pela glória, levantou o facão e, com a voz quase inaudível, bradou: “Viva a república de Princesa! Domingos docemente o sustentou pelo cotovelo e o apoiou, levando-o até o chão para ele descansar e sair do seu êxtase. Depois limpou o ferimento do pé e o enrolou com um lenço. A primeira coisa que fez quando se recuperou foi matar com o seu 38 o cachorro que se mijava de medo: “Cabra covarde é pra morrer na bala.”

Seu Moura quando soube mandou um caminhão buscar meu avô e tratou dele no hospital de Belo Jardim, para desespero do médico pois meu avô, sendo médico, perturbou demais com o outro, meu avô não era fácil.

Uma semana depois Risoleta nasceu berrando como uma cabrita, pulou do ventre de minha mãe como rolha de champanhe.

Só vi com meu avô uma vez, dez anos depois, em Campina Grande onde ele se refugiou para o resto de sua vida. Eu tinha três anos. Ele chegava de uma excursão com sua tropa de burro – naquele tempo ele era uma espécie de médico tropeiro – cheio de galinha, porco, bode, saca de feijão, arroz e milho, e tudo o que ele ganhava nas suas excursões pelo Sertão, sua forma de ganhar a vida. Era um homão, embora não fosse alto, usava sandálias, faltava-lhe um dedão, o que me impressionou muito porque eu nunca tinha visto um homem sem o dedão num pé.

 

 

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