Ofidiocultura

“Sonho diariamente matando meus inimigos”.

E por que não os mata? Perguntou ela.

“Porque não posso viver sem eles”.

R.C.

Criou cobras a vida toda. Começou adolescente, quando foi picado pela primeira namorada. Teve febre, frio e dor de cabeça, mas escapou com vida. Ao contrário do que se pode pensar ele não a matou com pauladas, soltou-a numa ravina dizendo: cuidado com quem morde, você pode um dia ser a sua a própria calda. E ela foi embora chocalhando. Com a dor da picada e a proximidade da morte ele teve uma espécie de prazer parecido com o orgasmo. Alguma coisa passou a atraí-lo para os ofídios, um interesse nem científico nem poético. Ele queria apenas saber o que as cobras sentiam, mas de uma forma experimental, queria vivenciar um mundo sem braços e pernas, mas com a agilidade e a percepção de uma víbora. Ele sempre quis ser uma víbora, mas não conseguia, era muito angélico e muito generoso. Não se compreendia picando ninguém, nem se perdoaria se fizesse isso. Mas seu fascínio pelas cobras aumentava dia a dia e ele passou a criar cobras.

Em casa, num velho aquário vazio, colocou areia, pedras e uma jararaca adolescente como ele. À noite eles saiam a passear e faziam amor atrás da igreja. Pouco a pouco ele começou a compreender os sentimentos da jararaca, passou a entender seus diálogos, suas fugas, suas sugestões. Aprendeu que o veneno nem sempre é inoculado no corpo, mas – os mais perigosos – são inoculados diretamente na alma, sem passar pelas veias e artérias, por via aérea, talvez através do som dos diálogos, suas réplicas, suas tréplicas.

Certa vez ele encontrou uma cobra coral entre os entulhos do quintal. Era linda, na sua maciez vermelho-preto-azulada. Seus olhinhos eram puro cristal, sua flexibilidade lenta, pura dança, sua cara, diferente das outras cobras, puro encantamento. Com muito cuidado a levou para dentro e a guardou numa lata de biscoito até comprar um aquário só para ela. Numa noite de insônia percebeu que ela saiu de seu aquário e foi para o aquário da jararaca. Enroscaram-se a noite toda e, com os primeiros raios de sol, a coral voltou para seu lugar.

“Que fostes fazer lá?” Perguntou. Ela disse: “Não é de sua conta, se quiser minha amizade fique na sua, se não, solte-me no quintal”. Ele considerou que criar cobras é um exercício de paciência, e continuou acreditando no futuro. Um dia, por descuido, limpando a areia da coral, de alguma maneira a agrediu e ela o picou. Imediatamente ele ficou apavorado, o veneno da coral é um dos mais mortais. Ele se deitou no chão à espera de alguma pessoa da família para lhe socorrer, levá-lo para o hospital, mas tinham saído todos. Com o tempo ele percebeu que, em vez da dor, sentia prazer na forma de uma calma relaxante. Começou a perceber que estava verdadeiramente imunizado contra os venenos inoculados. O tempo passou, ele se levantou e andou pela casa, a pequena ferida na mão desapareceu e a tarde caiu trazendo uma brisa renovadora.

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